Em uma conversa profunda e reveladora, José Luiz Alquéres, membro benemérito do Atlântico e ícone do setor elétrico, compartilhou sua visão sobre as seis décadas de transformações e os atuais impasses que travam a infraestrutura energética do país. Com a experiência de quem presidiu a Eletrobras e a Light, Alquéres aponta que o Brasil inverteu a lógica do desenvolvimento: transformou o planejamento em uma atividade meramente técnica, enquanto a execução se tornou refém de uma “discussão política interminável”.
O Nó do Planejamento e a Inversão de Papéis
Segundo Alquéres, o grande diferencial negativo do modelo brasileiro atual é a falta de consenso político prévio na fase de projetos. Ele explica que, em países desenvolvidos, o planejamento é um processo político que, uma vez decidido, tem uma implantação técnica rápida e eficiente. No Brasil, ocorre o contrário:
“Você fez do planejamento uma atividade técnica. Um bando de caras se reúne numa sala, rodam os modelos de computador, chegam em cima de uma mesa e fala: ‘Tá aqui o que tem que ser feito’. E aí começa a discussão política que é interminável”.
Essa distorção, segundo ele, é a raiz de muitos problemas atuais, permitindo que lobbies desbalanceiem o sistema e promovam leilões onde a base comparativa entre diferentes fontes de energia não é nivelada.
O Desequilíbrio do Sistema: A “Mão Invisível” não Basta
Defensor histórico da privatização, Alquéres faz uma autocrítica ponderada sobre como o mercado tem operado. Ele argumenta que, embora a competição seja legítima, um sistema elétrico complexo não pode ser regido apenas pelo interesse individual das empresas, comparando o setor a um corpo humano onde os órgãos não podem competir entre si por tamanho.
“A competição dentro do âmbito privado não é uma competição voltada ao melhor do Brasil, é uma competição voltada ao melhor para a minha empresa. (…) A mão invisível cuida de muita coisa, mas não de um sistema”.
O resultado, segundo ele, é um sistema desbalanceado pelo peso de interesses específicos, o que tem gerado a judicialização de leilões e decisões que nem sempre visam o menor custo para o consumidor final.
Governança e a “Praga” dos Subsídios
Alquéres não poupou críticas à atual governança do setor, citando o enfraquecimento de órgãos como a ANEEL e o ONS. Para ele, houve uma transição de órgãos de Estado para órgãos de governo, com indicações movidas por fisiologismo político em detrimento do mérito técnico.
Ele destacou como essa estrutura política, somada a uma representação desproporcional no Congresso, resultou na explosão da CDE (Conta de Desenvolvimento Energético). Hoje, o consumidor paga subsídios que pouco beneficiam o sistema de forma direta, servindo a interesses regionais ou setoriais específicos.
“Hoje você paga uma conta aqui no Rio que quase metade não é ligada a nada que te beneficia. (…) É para pagar mina de carvão, é para pagar subsídio que é uma grande praga nossa”.
Esperança na Volta da Excelência Técnica
Apesar do cenário de “espiral da morte” e rupturas tecnológicas, Alquéres encerrou a entrevista com um tom de otimismo moderado,. Ele nota a ascensão de novos quadros técnicos de altíssima qualidade em órgãos reguladores, o que interpreta como um sinal de que o país pode estar retomando o caminho da racionalidade.
Para o membro benemérito do Atlântico, a reforma mais urgente para o Brasil não é apenas econômica, mas sim uma reforma política que blinde o serviço público de interesses fisiológicos, permitindo que o setor elétrico volte a ser, como foi no passado, um motor de distribuição geográfica de renda e desenvolvimento.
Assista a entrevista completa de José Luiz Alquéres ao canal Brazil Journal: