Em entrevista exclusiva, o economista Paulo Rabello de Castro analisa os impactos do “tarifaço” anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros. A medida, que prevê a elevação de tarifas de importação para até 50%, acende o alerta sobre possíveis prejuízos à indústria nacional, mas também abre espaço para repensar a política comercial do Brasil. Na avaliação de Rabello, embora a medida represente uma ameaça grave ao fluxo de exportações e à competitividade de setores estratégicos, ela também pode impulsionar o país a buscar novos mercados e fortalecer sua autonomia econômica, por ampliação do seu mercado interno. Esta entrevista foi realizada em 17-07 e a edição fechada em 18-07, podendo a mesma já não representar os fatos atuais na data da publicação.
Qual seria o impacto imediato dessa tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os EUA?
O impacto imediato pode ser calculado, num limite extremo, com base numa virtual cessação de toda a atividade exportadora brasileira para os EUA. Se fosse para esse extremo, a partir de 1º de agosto, e se esse “embargo” prevalecesse durante um ano, o que também é uma hipótese radical, nós estaríamos falando de uma redução da atividade econômica no Brasil – que a RC Consultores calculou preliminarmente – de até 3,7 pontos percentuais do PIB de hoje aos próximos 12 meses.
Portanto, tal impacto “comeria” todo o crescimento esperado para os próximos 12 meses, ainda deixando um saldo negativo. Algo parecido com o recuo recessivo de 2015 e 2016. Resumindo: seria muito ruim para a sociedade brasileira, péssimo do ponto de vista de empregos e catastrófico para as empresas que estão direta ou indiretamente envolvidas no processo exportador para os EUA. Sempre lembrando que estou estimando uma situação de recuo extremo por embargo total. A realidade poderá se situar a meio caminho, mas, ainda assim, será gravíssimo. Essa distinção é muito importante porque, por exemplo, empresas que trabalham com exportações perecíveis, frutas, pescado, e, até certo ponto, com produtos refrigerados e congelados, muitos deles já embarcados e transitando daqui para os Estados Unidos, serão colhidos no meio dessa tormenta e terão que ser vendidos com fortes prejuízos.
Quais setores da economia brasileira seriam mais afetados?
O impacto de uma tarifa tão elevada pode ser desde catastrófico – para aqueles setores que hoje estão concentrados em exportações e, pior ainda, se estiverem concentrados em exportações para o mercado americano, – até aqueles segmentos que têm apenas uma beirada do total do seu faturamento com exportações naquele mercado. É óbvio que a influência é apenas indireta sobre os bens e os serviços considerados não comerciáveis com o exterior e há vários segmentos que são apenas indiretamente envolvidos. E, se olharmos a grande pauta do varejo brasileiro, sobretudo o varejo de alimentos e bebidas, eles podem até ter um efeito positivo momentâneo para o consumidor na medida em que café, suco de laranja, frutas, carnes, pescados, de um modo geral – e estou citando apenas alguns segmentos – devem ter um aumento da sua oferta interna decorrente da cessação ou da redução significativa de atividades para o mercado americano e terceiros mercados.
Essa medida dos EUA é mais política ou econômica?
Os Estados Unidos, ao ameaçar – e, por enquanto, é só ameaça – com uma tarifa da ordem de 50%, pegaram pesado, muito pesado, em relação ao Brasil. Praticamente só a China sofreu uma ameaça dessa natureza. A própria União Europeia, que – essa sim – é fortemente superavitária no comércio bilateral com os Estados Unidos, não sofreu tais sanções. Somos deficitários no comércio com os Estados Unidos – especialmente se somados os serviços -, apesar do que foi dito por eles na carta do Trump. Portanto, essa tarifa de 50% adquire sim, como vários analistas têm afirmado, um caráter de sanção política. Não é só um ajuste comercial, como parece ser em relação a vários países 18 asiáticos, por exemplo, dos quais os Estados Unidos já vêm se aproximando e obtendo acordos bilaterais.
Qual seria o impacto de uma reação tarifária brasileira sobre a nossa própria economia?
Temos que ter bem claro que a consequência imediata de uma retaliação, ou seja, da introdução de uma sobre tarifa sobre um naipe de exportações dos Estados Unidos ao mercado brasileiro, em resposta ao tarifaço deles, será, primeiro, altamente inflacionário, porque elevaria os preços finais dos produtos que chegam para nós, tendo em vista o fato de que a tarifa funciona como se fosse um ICMS adicional. Podemos imaginar algo assim, um ICMS federal incidente sobre produtos americanos, incidentes na nossa alfândega. Isso em adição a todos os tributos que já são pagos na internalização dos produtos americanos. Mas a principal preocupação nossa com a eventual retaliação brasileira é com o que acontecerá com os novos investimentos planejados por empresas exportadoras e importadoras. Esse é o principal obstáculo que vejo na utilização da retaliação como medida de reação do Brasil. Haverá muita dúvida e recuo de investimentos como expressão da incerteza dos boards das empresas. Até as empresas pequenas vão colocar o pé no freio e não vão pagar para ver que bicho vai dar nesse jogo. E, ao não pagar para ver o que vai dar, isso significa que muitas decisões de investimento deixarão de ser tomadas e a soma dessas paralisações é extremamente grave para o andamento da economia ao longo do ano eleitoral de 2026.
O consumidor brasileiro também sentiria os efeitos?
Essa pergunta é interessante. O consumidor brasileiro, como comprador de bens alimentícios, de bebidas, seja café ou suco de laranja, frutas, seja de carnes ou grãos, e até mesmo, como empresas que compram bens intermediários – ferro, aço, alumínio – que são exportados para os EUA, ou ainda, – lembrando – papel e celulose, ou petróleo, todos esses são consumidores que vão ter um certo benefício imediato, porque fatalmente haverá uma certa corrida promocional por parte das empresas embargadas pelo tarifaço, para promover um pouco mais o mercado interno mediante redução de seus preços. Esse é um efeito de substituição de mercados bastante importante que o governo deveria, inclusive, fomentar. A China está pensando nisso, promover mercado interno. Há, concretamente, a possibilidade, na área do varejo alimentar, por exemplo, de se negociar com os Estados a antecipação da isenção da cesta básica nacional de alimentos (CBNA) aprovada na reforma tributária e cuja desoneração antecipada traria benefícios de fomento para os dois lados, para o consumidor e para o vendedor dessas mercadorias que deixam de ser colocadas no exterior.
Qual o papel do setor privado diante desse cenário?
O setor privado tem sempre um papel primordial. Ele, por meio das associações de classe e das associações interclassistas, como as associações comerciais, pode dar uma orientação importantíssima para o governo, que tem sido um negociador, por enquanto, que age meio às cegas. Nós estamos atrasados nesse dever de casa, que precisaria ter sido feito antes, desde abril, e que, claramente, o Ministério da Indústria e Comércio não executou ainda com a minúcia que seria necessária. O comentário não vai em tom de crítica, mas em tom de constatação. As autoridades estão agora correndo atrás do prejuízo e os empresários precisam ajudar com orientações. Será que elas vão ouvir? Então, o primeiro conselho – bem dado – que o setor privado já passou para o governo brasileiro – que não foi acatado aparentemente – é o de tentar a todo custo um adiamento desse tarifaço para, no mínimo, 30 ou, se possível, 90 dias, a fim de encaixar uma conversação que faça sentido com os Estados Unidos. Em segundo lugar, o setor privado tem possibilidade de alcançar uma interlocução com a sua contraparte lá fora, nos Estados Unidos, porque são os empresários americanos, sejam eles compradores da mercadoria, sejam também associações, por exemplo, de consumidores de café, que vão ver o preço subir e que podem não ter mais o acesso aos blends brasileiros, etc.
São esses os interlocutores do setor privado do lado de lá que influenciarão, porque os empresários americanos são eleitores lá. São eles que podem pedir que a administração Trump não demonize as relações com o Brasil.
Há risco de perda permanente de mercado nos EUA?
Francamente, não considero que esse embate, como já disse, de ordem eminentemente política, vai se estender por muito mais tempo. Entretanto, qualquer desdobramento do tarifaço que esteja influenciando fortemente o resultado econômico do Brasil nos próximos 12 a 24 meses, para muita gente, no setor empresarial, pode ser a diferença entre f icar no negócio ou ter que fechar as suas atividades, encerrar o negócio, de forma que, para muitos, a característica do que seria passageiro no plano histórico pode se tornar permanente no plano individual ou empresarial.
Quais alternativas comerciais o Brasil pode buscar nesse momento?
Alternativas comerciais sempre há. Lembro-me bem de uma frase de Roberto Campos, um saudoso embaixador, quando dizia que a visão do patíbulo aguça as mentes. Ou seja, você vê ali a corda que vai ser usada pelo carrasco para enforcá-lo, isso faz você pensar na vida. Muito mal comparando, essa admissão de uma extrema dificuldade à frente, por parte das empresas que têm fortes clientes nos Estados Unidos, já está fazendo com que elas, freneticamente, busquem alternativas de expandir suas vendas para terceiros países compradores, assim como também já começam a tentar fomentar canais de vendas nos seus mercados internos.
Qual o peso da imagem do Brasil lá fora nas decisões comerciais como essa?
A imagem do Brasil é boa. O Brasil é um respeitável parceiro internacional, que é um bom pagador de suas contas e tem um confortável saldo em moeda estrangeira. É bem diferente da situação da Argentina, por exemplo. Manter as linhas de crédito para exportações é muito importante – lembraria aqui a possível atuação do BNDES- e, portanto, o que vai estar em jogo e vai estar sendo avaliado por terceiros países é, basicamente, a capacidade do Brasil de agir com absoluta frieza e determinação em relação ao momento.
Qual a melhor estratégia para lidar com essa crise?
Bem difícil de resumir. Mas esta é uma crise de protecionismo comercial cada vez mais aguda. Não envolverá só os Estados Unidos. E, neste momento, todos os países têm a tentação de também elevar as suas próprias proteções, ou seja, elevar o seu padrão tarifário. Os governos, em princípio, ficam tentados a isso porque, ao aumentar o imposto de importação, podem avançar em mais uma importante fonte de arrecadação. Mas essa decisão seria, ao mesmo tempo, inflacionária e também altamente recessiva. Portanto, corroboro e endosso a posição de vários colegas que têm tido a sabedoria, nos seus depoimentos, de lembrar que deveríamos, como melhor estratégia de saída, estabelecer limites ao nosso próprio protecionismo. Devemos avançar, pelo contrário, no planejamento de uma redução tarifária inteligente. Redução, sim, no sentido de aumentar a nossa capacidade produtiva, a nossa competitividade e a nossa produtividade, Não devemos aumentar a taxação de uma série de produtos e serviços de terceiros países – úteis para nosso desenvolvimento e inovação- que estão sendo oferecidos a nós. Óbvio que a indústria nacional precisa ter defesa sim. E para isso nós precisamos, ao mesmo tempo que reduzimos tarifas, atuar com firmeza reduzindo cada vez mais o “custo Brasil”. Estou falando de reduzir impostos, mas estou falando, sobretudo, de atacar os altíssimos custos financeiros internos, combater o tamanho da máquina pública e da burocracia. Estou falando, na realidade, de o governo aproveitar para anunciar uma agenda nacional de superação das nossas ineficiências. É uma agenda que invoca um projeto nacional e, portanto, essa crise pode nos levar a uma redefinição positiva da maneira brasileira de tocar nossa economia. Se não for agora, terá que acontecer em 2027, na expectativa de uma verdadeira alternância do poder no nosso País.