Publicado originalmente no Estado de Minas, em 16 de junho de 2026.
Mal você acorda pela manhã, o teu pão preferido já te espera na padaria mais próxima, o leite já viajou muitos quilômetros para te encontrar e, mais tarde, você poderá abastecer a casa com uma compra completa em algum dos muitos milhares supermercados do País, onde também será possível encontrar uma infinidade de alimentos e bebidas, de artigos de higiene, cosméticos, utensílios, eletrodomésticos e farmácia. O abastecimento nacional funciona como uma rede de múltiplos elos, conectados por relações invisíveis de oferta e demanda, tudo em dinâmico equilíbrio, sem atuação de qualquer órgão central de controle. A esse pequeno milagre diário do abastecimento preciso e ininterrupto, chamamos de “economia de mercado”. Essa é a dádiva das sociedades que dispõem de liberdade política e comercial que, genericamente, conhecemos como “capitalismo popular”.
Na sua versão popular – a mais avançada e moderna – o capitalismo é a organização social que favorece o enriquecimento de todos que queiram trabalhar e se empenhar no seu avanço profissional. Esse tipo de sociedade é garantido por uma fórmula básica: o respeito a cada indivíduo e à vontade de cada um, mesmo acima do poder do governante. Difere das sociedades baseadas no mando de uns poucos no poder. Trata-se de um novo tipo de convivência em que prevalece a confiança mútua como pacto social, cada qual fazendo sua parte da melhor maneira possível.
Nenhum segmento social encarna melhor tal vocação para a liberdade e para o exercício da confiança do que o grande setor de Abastecimento. Você não se pergunta como o pãozinho foi feito. Confia e consome. Dentro de regras pré-convencionadas, o abastecimento nacional flui como uma grande orquestra comandada pelo que Adam Smith chamou de “mão invisível”. No Brasil, as cadeias de abastecimento, do campo e da indústria até a mesa e a casa, representam cerca de um quinto do PIB e geram mais de 20% de todos os empregos formais. A saúde da economia do País é refletida diariamente nos fluxos do abastecimento, como um espelho da vontade econômica das pessoas. Quanto mais desimpedidas e eficientes forem as linhas de transmissão do abastecimento nacional, maior será a prosperidade de todos.
Mas nem sempre foi assim. O caminho para os recentes avanços do abastecimento nacional foi bastante árduo e cheio de incompreensões. Controles e tabelamentos de preços marcaram o setor produtivo até o fim da década de 1980. Foi a época dos equivocados planos econômicos, decretados por governantes convencidos de que sua intervenção sobre o abastecimento de produtos do agro e da indústria fariam melhorar as condições de preço para os consumidores finais. A cada manipulação do governo, pior se tornava o abastecimento pela simples escassez da oferta. O setor industrial de preparação de alimentos também penava diante do poderoso Conselho Interministerial de Preços- o CIP – encarregado de vigiar os custos de produção e baixar tabelas de preços na saída das fábricas. Apenas com a abertura econômica e o plano Real em 1994 se tornou possível estabelecer uma convivência menos conflitiva do governo com o setor produtivo. O aprendizado das autoridades em respeitar os mercados e evitar prejudicar o equilíbrio concorrencial resultou em avanços espantosos da produtividade e da eficiência, sobretudo no campo. A produção de grãos e carnes saltou um múltiplo superior a cinco vezes nos últimos 40 anos. Na logística do atacado e no varejo, o abastecimento também mudou de cara, com saltos de produtividade. Contudo, ao avaliar o desempenho na indústria e no comércio como um todo, observamos que as variações da produtividade, em décadas recentes, têm sido, na média, negativas. (Ver quadro). Custos de operação e distribuição precisam ser cortados em série. Hoje, o varejo brasileiro precisa de muito mais flexibilidade, mormente nas regras trabalhistas, para vencer esse desafio de produtividade.
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A conquista mais relevante foi, no entanto, na planilha dos impostos. A reforma tributária abrigou um pedido fundamental feito pela liderança do setor, determinando isenção completa de impostos para uma ampla Cesta Básica de Alimentos, incluindo frango, peixe e carnes vermelhas.
A maior liberdade operacional do setor, conjugada à confiança de todos os atores econômicos no mecanismo de oferta e demanda como organizador final dos mercados, produziu uma era de prosperidade extraordinária. Os antigos armazéns desapareceram, dando lugar a uma então inovadora tecnologia de autosserviço, que chegou até aos restaurantes a quilo. Hoje, uma nova tecnologia de entregas rápidas ganha a preferência crescente de milhões de consumidores. O setor do abastecimento não para de inovar porque responde continuamente aos apelos de uma sociedade engajada na era da robótica humanoide e da inteligência artificial.
O recado para os governantes e candidatos ao governo, às vésperas de novo embate eleitoral, contém mensagem clara: o avanço da produtividade setorial depende de maior afinação com os controles estatais, harmonizando regras administrativas, maior acesso ao crédito e atualização da bizantina legislação trabalhista. Apesar dos avanços alcançados, a saga do abastecimento eficiente está longe de terminar.
