A crise na estatal vai muito além do prejuízo financeiro: é um retrato da “extração fiscal” que drena a produtividade brasileira.
A notícia caiu como uma bomba no cenário econômico: a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) negou o pedido dos Correios para atuar como avalista em um empréstimo internacional que poderia chegar a R$ 20 bilhões. A estatal, que vem acumulando prejuízos bilionários, buscava captar recursos para tentar estancar uma sangria financeira que já ameaça a continuidade de suas operações básicas.
Mas o que está por trás dessa negativa e o que isso diz sobre a gestão pública no Brasil?
Em entrevista recente ao Jornal Gente (Rádio Bandeirantes), o economista e fundador do Instituto Atlântico, Paulo Rabello de Castro, dissecou a situação. Para ele, o caso dos Correios é o exemplo perfeito de como a ineficiência estatal penaliza duplamente o cidadão: primeiro na qualidade do serviço, segundo no bolso.
O Buraco é Mais Embaixo
Segundo informações veiculadas pela BandNews, os Correios devem fechar o ano com um prejuízo operacional significativo (estimado em cerca de R$ 800 milhões, acumulando-se a perdas anteriores). A gestão da empresa alegava precisar do aporte para modernização e saneamento de dívidas.
No entanto, o Tesouro Nacional barrou a operação por um motivo técnico e prudencial: o alto risco fiscal. Sem um plano de recuperação claro, conceder o aval da União seria colocar o dinheiro do contribuinte em risco iminente de calote.
Para Paulo Rabello, a tentativa de tomar crédito nessas condições beira o absurdo.
“Tentou-se fazer uma operação com um banco médio, com taxas que chegariam a 136% do CDI. Isso não é um empréstimo, é uma corda no pescoço. O Tesouro agiu corretamente ao dizer não. Não se resolve ineficiência de gestão cavando um buraco financeiro ainda maior,” analisou o economista.
A “Indústria” da Ineficiência
A crise dos Correios ilustra um conceito que o Atlântico vem debatendo exaustivamente: a Extração Fiscal.
O Brasil vive um cenário onde o crescimento da despesa pública (e da arrecadação necessária para cobri-la) supera largamente o crescimento do PIB. Paulo Rabello aponta que, nos últimos 30 anos, enquanto a economia produtiva cresceu cerca de 1.300%, a máquina de arrecadação e gasto cresceu 1.900%.
No caso dos Correios, essa distorção fica clara. A empresa detém o monopólio de cartas e uma posição privilegiada na logística, mas sofre com aparelhamento político, carrega um passivo trabalhista e previdenciário (Postalis) gigante e ainda perde competitividade para empresas privadas de logística que são mais ágeis.
O resultado, segundo Paulo, é triste para a população: “Os Correios hoje não entregam apenas cartas ou encomendas atrasadas; eles entregam humilhação na porta dos brasileiros.”
Como o Atlântico avalia essa crise?
O diagnóstico do Instituto é que aportar dinheiro novo em uma estrutura velha é desperdício. Antes de falar em empréstimos bilionários, é necessário:
Choque de Gestão: Profissionalização absoluta dos cargos de direção, blindando a estatal de indicações políticas.
Transparência: A sociedade precisa saber o tamanho real do rombo do fundo de pensão e das operações logísticas.
Eficiência ou Privatização: O Estado deve provar que consegue gerir o ativo com eficiência. Se não consegue, deve devolver a responsabilidade à iniciativa privada ou criar modelos de cooperativas com os funcionários, como sugerido por Paulo Rabello.
A negativa do Tesouro Nacional foi um freio de arrumação necessário, mas não resolve o problema. Enquanto o Brasil não enfrentar a raiz da ineficiência estatal, continuaremos vendo o dinheiro de quem produz (o “dinheiro bom”) sendo drenado para cobrir os buracos da má gestão (a “despesa ruim”).
Para mudar esse jogo, é preciso uma dose de “Rebeldia e Sonho”, Título de um dos livros de Paulo Rabello: a rebeldia de não aceitar o inaceitável e o sonho de construir um país onde o Estado sirva ao cidadão, e não o contrário.