Na última terça-feira, 4 de novembro de 2025, o Senado Federal instalou oficialmente a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, com o objetivo de investigar a atuação de facções, milícias e redes de lavagem de dinheiro em todo o território nacional. O encontro inaugural foi marcado por uma disputa equilibrada entre os Senadores Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e Fabiano Contarato (PT-ES) pela presidência do colegiado — vencida por Contarato por seis votos a cinco. O Senador Hamilton Mourão, por sua vez, foi eleito vice-presidente da CPI com a concordância de todos.
Antes da votação, o Senador Mourão apresentou uma fala contundente, que se tornou o ponto alto da reunião. Em seu discurso, o Senador alertou para o risco do Brasil estar avançando para o que chamou de “mexicanização do crime organizado”, um processo que, segundo ele, pode transformar o país em um narcoestado se não houver reação coordenada e firme das instituições.
“Há muito tempo eu venho alertando para aquilo que chamo de ‘mexicanização do crime organizado no Brasil’, com a evolução lenta e inexorável para nos tornarmos um narcoestado. O narcotráfico hoje, parte para cima das forças policiais e do próprio Estado, que é o Exército Brasileiro”, afirmou o Senador Mourão.
O Senador resgatou a experiência pessoal de enfrentamento direto ao narcotráfico para ilustrar o grau de risco institucional que o país enfrenta. O Senador Mourão destacou que o crime organizado deixou de atuar de forma clandestina e passou a desafiar o poder público abertamente — cenário semelhante ao vivido por países como México e Colômbia nas décadas anteriores.
Entre os principais pontos que o Senador propôs como eixos de investigação da CPI, estão:
- Infiltração de organizações não governamentais que, segundo ele, atuam em conluio ou aproveitam-se do crime organizado;
- Lavagem de dinheiro, com foco na circulação financeira ilícita e no financiamento de facções;
- Tráfico e posse de armamentos nas mãos do narcotráfico;
- Infiltração no ambiente político, fenômeno que considerou crescente e preocupante;
- Atuação das Forças Armadas e integração com os órgãos de segurança pública, sobretudo nas fronteiras;
- Reconhecimento formal das facções criminosas como organizações terroristas, o que o Senador Mourão classificou como parte da “quarta onda terrorista mundial”;
- Revisão da legislação penal, especialmente no tocante à fabricação doméstica de armas e punições aos crimes associados.
O Senador Mourão defendeu ainda que a CPI adote um olhar técnico, sem perder a dimensão política inerente ao Senado:
“Essa é uma casa política, e toda decisão aqui é política. Mas o enfrentamento ao crime organizado exige seriedade, técnica e coragem. Precisamos compreender que o bandido não é um desprovido social — é alguém que escolhe o caminho do crime. São questões sociológicas, mas também de ordem moral e de segurança nacional.”
A fala do Senador Mourão marcou o tom de urgência que permeou a instalação da CPI, especialmente em um contexto nacional de recrudescimento da violência e de operações policiais de grande impacto, como a que ocorreu recentemente nos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, com mais de uma centena de mortes registradas.
Após a votação, Senador Fabiano Contarato (PT-ES) foi eleito presidente da comissão e reafirmou o compromisso de conduzir os trabalhos com independência, defendendo que “a segurança pública não deve ser uma pauta apenas da direita”. Na sequência, o Senador Alessandro Vieira (MDB-SE), escolhido relator, apresentou o Plano de Trabalho, que inclui o diagnóstico da situação do crime organizado no país e a análise das políticas públicas mais eficazes no seu combate.
A CPI terá 120 dias de duração e contará com 11 senadores titulares. Entre os temas que devem ser objeto de investigação estão ocupação de territórios, lavagem de dinheiro por meio de criptomoedas, corrupção ativa e passiva, sistema prisional, tráfico de drogas e armas, além da integração das forças de segurança pública e das Forças Armadas nas fronteiras.
O colegiado também convidará governadores e secretários de segurança pública dos estados com os melhores e piores índices de criminalidade, bem como autoridades federais e especialistas que atuam há décadas no enfrentamento ao crime organizado — entre eles, o promotor Lincoln Gakiya, reconhecido por sua atuação contra o PCC.
A instalação da CPI ocorre em um momento sensível, no qual o país enfrenta a consolidação de facções cada vez mais estruturadas e economicamente poderosas. Para o Senador Mourão, essa é uma oportunidade do Senado exercer o papel de “guardião da soberania nacional e da integridade do Estado”, enfrentando com rigor os interesses ilícitos que ameaçam a segurança pública e a estabilidade democrática.