Publicado originalmente no perfil Carta do Condado, no Substack, em 31 de Maio de 2026.
A temperatura cai para dígitos iniciando em 1 e o Faria Limer retira do armário sua jaqueta puffer. No Condado, é um passa pra lá de sobretudo, passa pra cá de cachecol. Faria Limer gosta de frio, diz que nele as pessoas ficam mais elegantes (mas esquece-se da indumentária doméstica oficial do frio: roupa de moletom com chinelo e meia…).
Mas, segundo os especialistas em climatologia, o Faria Limer deveria aproveitar: nos próximos meses, devemos ter temperaturas historicamente altas, acompanhadas de muita chuva e com probabilidade significante de fenômenos meteorológicos extremos.
Nas últimas semanas, o governo federal passou a tratar com atenção crescente a possibilidade de um novo episódio de El Niño: ministérios, universidades, centros de pesquisa e órgãos de monitoramento climático passaram a intensificar reuniões para acompanhar a evolução do fenômeno, cuja intensidade ainda é incerta, mas cujos potenciais impactos já são suficientes para mobilizar Brasília. Afinal, quando funcionários públicos começam a marcar reuniões semanais para discutir um assunto que até pouco tempo atrás aparecia apenas em relatórios técnicos, geralmente é porque alguém enxergou um problema no horizonte.
À primeira vista, parece uma notícia destinada ao caderno de meio ambiente dos jornais. Algo que interessa a meteorologistas, agricultores e pessoas que sabem a diferença entre um cumulonimbus e um estratocúmulo.
Mas investidores deveriam prestar atenção, porque existe uma característica especial dos mercados financeiros: frequentemente, os eventos que mais movimentam preços não começam nos lugares onde os investidores estão olhando.
- Em 2022, a maior preocupação dos mercados era a trajetória dos juros americanos. Poucos meses depois, gestores do mundo inteiro estavam estudando fertilizantes, exportações de gás natural e rotas marítimas no Mar Negro;
- Em 2023, quase ninguém previa que empresas ligadas à inteligência artificial se tornariam o coração do mercado mercado;
- Em 2024, os investidores passaram meses debatendo quantos cortes de juros o Federal Reserve realizaria, apenas para descobrir que a resposta importava menos do que imaginavam;
- Sem contar a pandemia de 2020…
Agora, enquanto boa parte do mercado continua obcecada pela próxima fala de Kevin Warsh, o novo presidente do banco central americano, talvez valha a pena dedicar alguns minutos à temperatura da superfície do Oceano Pacífico: é ali que pode estar surgindo uma das histórias econômicas mais relevantes dos próximos trimestres.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que a média histórica durante um período prolongado. Em teoria, parece uma alteração pequena; mas na prática, é uma das engrenagens climáticas mais importantes do planeta, capaz de modificar padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em diversas regiões do mundo.
Embora o fenômeno tenha origem em uma área específica do oceano, seus efeitos são globais: enquanto algumas regiões enfrentam chuvas acima da média e maior risco de enchentes, outras convivem com secas prolongadas, ondas de calor e perdas agrícolas significativas. Em um mundo onde cadeias produtivas atravessam continentes e mercados financeiros reagem instantaneamente a qualquer mudança de expectativa, essas alterações climáticas rapidamente deixam de ser um assunto meteorológico para se tornarem um assunto econômico.
Os pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) afirmam que o fenômeno já está configurado e que seus efeitos começam a ser observados em diferentes partes do mundo. A grande questão agora não é saber se haverá El Niño, mas qual será sua intensidade ao longo dos próximos meses. E isso, claro, terá efeito no seu bolso e na sua carteira de ativos.
Um episódio moderado do El Niño costuma gerar perturbações localizadas e impactos administráveis. Um episódio forte, por outro lado, pode alterar significativamente a produção agrícola global, pressionar preços de commodities, influenciar a inflação e modificar as expectativas de crescimento econômico em diversos países simultaneamente.
É justamente por isso que os meteorologistas observam com tanta atenção a evolução das temperaturas no Pacífico. Os episódios históricos de 1982-83, 1997-98 e 2015-16 deixaram um legado de secas severas, enchentes, ondas de calor e prejuízos bilionários ao redor do mundo.
Ninguém está afirmando que 2026 repetirá esses eventos, mas a simples possibilidade já basta para colocar governos e mercados em estado de alerta. Exemplo: se uma seca comprometer a produção agrícola de grandes exportadores mundiais, os preços dos alimentos tendem a subir; se os alimentos sobem, a inflação ganha força; se a inflação ganha força, bancos centrais precisam rever seus planos; se os bancos centrais mudam de direção, o preço dos ativos financeiros inevitavelmente se ajusta.
Observe como um fenômeno climático aparentemente distante consegue percorrer toda a cadeia econômica até chegar à carteira de investimentos de alguém sentado em uma mesa na Faria Lima: é uma lembrança de que a economia continua sendo uma ciência social construída sobre uma infraestrutura física.
E talvez o aspecto mais interessante dessa história seja a dificuldade que os mercados têm para precificar riscos climáticos: quando um presidente de banco central faz um discurso, milhares de analistas fazem a análise de sentimento do discurso imediatamente, abrem suas planilhas, ajustam projeções e publicam relatórios em questão de minutos Quando cientistas alertam para mudanças importantes nas condições climáticas globais, a reação costuma ser muito mais lenta e dispersa: afinal, como mensurar o impacto de um fenômeno climático no preço dos ativos?
É relativamente simples transformar uma decisão de juros em um modelo financeiro: afinal, uma taxa de desconto maior ou menor altera diretamente o valor dos ativos. Já a temperatura do Oceano Pacífico não cabe tão facilmente em uma planilha de Excel, é preciso percorrer um longo caminho até chegar ao mundo das finanças: primeiro afeta o clima, depois a produção agrícola, em seguida os preços das commodities, a inflação, as expectativas dos bancos centrais e, só então, os mercados financeiros.
No caso brasileiro, os efeitos do El Niño costumam ser particularmente interessantes porque variam bastante entre as regiões do país.

Historicamente, o Sul tende a registrar aumento das chuvas durante episódios mais intensos do fenômeno. Isso eleva o risco de enchentes, alagamentos e interrupções logísticas, especialmente em áreas urbanas e regiões dependentes de infraestrutura rodoviária. Os acontecimentos recentes em Porto Alegre servem como um lembrete de que eventos climáticos extremos podem gerar prejuízos econômicos bilionários em questão de dias.
Já no Norte e no Nordeste, o padrão costuma ser o oposto: a redução das chuvas e o aumento das temperaturas podem pressionar reservatórios, prejudicar atividades agrícolas e aumentar a vulnerabilidade de regiões já sujeitas a períodos prolongados de seca. Segundo os especialistas, esses efeitos tendem a se manifestar com maior intensidade entre o verão e o outono de 2027.
Para o Brasil, nosso fazendão produtor de commodities e alimentos, o agronegócio responde por uma parcela significativa das nossas exportações, abastece o mercado doméstico e influencia diretamente variáveis como inflação, crescimento econômico, arrecadação e câmbio. Dependendo da forma como o El Niño se manifestar, podemos observar desde perdas localizadas de produtividade em culturas agrícolas até alterações nos preços de alimentos, impactos sobre a geração hidrelétrica e mudanças nos fluxos de exportação. Em algumas regiões, o excesso de chuva pode dificultar plantio, colheita e transporte; em outras, temperaturas elevadas e falta de precipitação podem reduzir rendimentos e pressionar custos. Para um país que exporta soja, milho, café, açúcar, carne bovina e suco de laranja para o mundo inteiro, o clima deixa de ser apenas uma preocupação do produtor rural e passa a ser uma variável macroeconômica de primeira ordem, capaz de influenciar desde o resultado das empresas listadas em bolsa até as projeções para inflação e crescimento feitas pelo Banco Central.
O mercado gosta de acreditar que o mundo é movido por bancos centrais, algoritmos, modelos econométricos e relatórios de research. Mas, de tempos em tempos, a natureza aparece para lembrar que toda a riqueza financeira do planeta continua dependente de coisas extraordinariamente simples: chuva na hora certa, temperatura adequada e uma boa safra. Enquanto investidores tentam adivinhar a próxima decisão do Fed, o Oceano Pacífico prepara silenciosamente a sua própria reunião de política monetária. A diferença é que, ao contrário dos bancos centrais, ele não divulga ata, não faz coletiva de imprensa e não está particularmente preocupado com o consenso do mercado.
E se você achava que só as eleições de 2026 iam chacoalhar sua carteira de investimentos, já coloca mais uma coisa pra monitorar e usar jaleco: o de clima e de El Niño.