Publicado originalmente no LinkedIn de Jackson Vasconcelos, em 11 de agosto de 2026.
Os exemplos recordam uma verdade fundamental: os direitos políticos não surgiram espontaneamente. Foram conquistados ao longo do tempo, quase sempre por meio de mobilização, enfrentamento de resistências e transformação institucional.
Os diferentes sistemas de votação mostram que não existe um modelo eleitoral universal. Os sistemas acompanham a história e o nível de confiança das populações. A desinformação leva bastante gente a acreditar que somente o Brasil utiliza a votação eletrônica, mas diversos outros países também utilizam. Alguns usam máquinas nas seções eleitorais; outros adotam leitura óptica das cédulas, identificação biométrica ou transmissão digital dos resultados. E há experiências de votação pela internet.
O alcance das tecnologias também varia: em determinados países, elas atendem a todo o eleitorado; em outros, estão restritas a regiões, grupos específicos ou projetos experimentais.
Compreender essa diversidade muda a maneira como enxergamos o debate eleitoral.
A primeira conclusão importante é simples: não existe um modelo perfeito que possa ser aplicado, sem adaptações, a todos os países. O Brasil e a Índia realizam eleições de grande escala com máquinas eletrônicas. Os Estados Unidos adotam procedimentos variados de um estado para outro. Em países europeus existem combinações diferentes de voto presencial, postal, eletrônico e antecipado.
A base de dados do International IDEA, organização internacional que apoia a democracia em todo o mundo, demonstra que diferentes formas de tecnologia eleitoral estão presentes em dezenas de países.
Sugiro que vocês conheçam o site do International IDEA. É completo e boa fonte de informação e estudos.
O conceito de votação eletrônica, portanto, é amplo: pode abranger desde máquinas que registram diretamente o voto até sistemas de leitura óptica ou votação remota pela internet. Isso exige cautela nas comparações internacionais. O sistema eleitoral é sempre uma escolha política e institucional, não uma regra universal.
A votação eletrônica não é exclusividade brasileira, portanto. O Brasil se destaca pela utilização nacional e integrada das urnas eletrônicas. Já, Índia, Bélgica, Bulgária, Peru e Filipinas estão entre os países que utilizam diferentes modalidades de votação ou apuração eletrônica. França, México e outros países também adotam recursos digitais em situações específicas.
O que distingue o caso brasileiro é principalmente a escala. Nas eleições municipais de 2024, mais de 155 milhões de pessoas estavam aptas a votar, segundo o TSE. Então, organizar uma eleição informatizada para um eleitorado dessa dimensão, distribuído por milhares de municípios e por localidades de difícil acesso, representa uma operação logística de enorme complexidade.
A discussão séria, portanto, não deve se limitar à falsa oposição entre voto eletrônico e voto em papel. Todo sistema apresenta vantagens, riscos e necessidades de controle. O ponto central é saber se existem mecanismos adequados de segurança, auditoria, fiscalização, transparência e contestação.
Votar pela internet é possível? Será esse o futuro das eleições no Brasil?
A Estónia é a principal referência mundial em votação remota pela internet. Desde 2005, o país permite que seus cidadãos votem online nas eleições nacionais, utilizando uma identidade digital. Na eleição parlamentar de 2023, aproximadamente 51% dos votos foram transmitidos pela internet. Foi a primeira eleição nacional no mundo em que os votos online superaram os votos em papel. Os dados estão disponíveis no portal oficial das Eleições da Estônia.
A experiência estoniana, entretanto, não pode ser analisada isoladamente. O país construiu durante anos uma infraestrutura pública digital, possui população relativamente pequena e incorporou a identidade eletrônica a diversos serviços do Estado. A votação online surgiu dentro desse ambiente institucional. Outros países disponibilizam modalidades de voto pela internet de maneira mais limitada, especialmente para cidadãos residentes no exterior.
De acordo com o International IDEA, o voto online está disponível em cerca de uma dúzia de países, mas, na maioria dos casos, não atende indistintamente a todo o eleitorado. A lição é clara: a tecnologia não elimina automaticamente os métodos tradicionais. Ela pode conviver com eles e ampliar as possibilidades de participação, desde que seja acompanhada por segurança, inclusão digital e confiança pública.
Os procedimentos eleitorais revelam muito sobre a história e a cultura de cada sociedade. Na Gâmbia, por exemplo, o eleitor recebe uma pequena esfera — semelhante a uma bola de gude — e a deposita no tambor correspondente ao candidato escolhido. O próprio órgão eleitoral do país descreve oficialmente esse procedimento. O sistema foi concebido para ser simples e acessível mesmo a eleitores que não saibam ler.
Na Índia, a legislação eleitoral exige locais de votação próximos das comunidades, inclusive em regiões remotas, situação que impõe uma logística para equipes percorrerem florestas, montanhas e áreas isoladas para garantir que os cidadãos tenham acesso às urnas.
Nos Estados Unidos, astronautas já votaram, enquanto estavam fora do planeta. Desde 1997, a legislação do Texas permite que astronautas registrados no estado recebam e enviem suas cédulas eletronicamente durante missões espaciais.
Segundo a NASA, David Wolf tornou-se naquele ano o primeiro norte-americano a votar no espaço. Em muitos estados norte-americanos, escolas, igrejas, centros comunitários e até garagens particulares podem ser temporariamente transformados em locais de votação. Esses exemplos mostram que uma eleição não é apenas um procedimento técnico. Ela também expressa a capacidade de adaptação, as tradições e a identidade institucional de um país.
A escala eleitoral ajuda a compreender a responsabilidade envolvida na organização de uma eleição.
A Índia realizou, em 2024, a maior eleição da história. Aproximadamente 969 milhões de pessoas estavam registradas para votar, e cerca de 642 milhões participaram do processo. A votação ocorreu em várias etapas, ao longo de semanas, para que a estrutura eleitoral pudesse atender diferentes regiões do país.
A Indonésia também possui mais de 200 milhões de eleitores.
Os Estados Unidos contam com mais de 240 milhões de cidadãos em idade eleitoral, embora o número de eleitores registrados e a participação efetiva variem.
No Brasil, o eleitorado ultrapassou 158 milhões de pessoas em 2026, conforme dados do TSE. O país está, portanto, entre as maiores democracias eleitorais do planeta. Isso representa muito mais do que uma posição em uma classificação internacional. Significa administrar milhares de candidaturas, seções eleitorais, mesários, equipamentos e procedimentos de fiscalização em um território continental.
O voto feminino e a permanente ampliação dos direitos.
Atualmente, o direito das mulheres ao voto pode parecer uma conquista antiga e consolidada. Historicamente, porém, é relativamente recente. Em muitos países, as mulheres somente conquistaram a cidadania eleitoral ao longo do século XX.
No Brasil, o voto feminino foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932 e incorporado à Constituição de 1934.
Na Arábia Saudita, as mulheres participaram pela primeira vez como eleitoras e candidatas em eleições municipais realizadas em 2015.
A ONU Mulheres registrou a importância histórica daquele momento, embora a participação política feminina no país permanecesse limitada.
O Vaticano constitui uma situação particular.
A escolha do papa é realizada pelo Colégio dos Cardeais, e somente cardeais com menos de 80 anos participam do conclave. Como as mulheres não podem ser ordenadas sacerdotes na Igreja Católica e, consequentemente, não chegam ao cardinalato, elas não integram esse processo de escolha.
Quem organiza e fiscaliza as eleições?
O Brasil possui uma estrutura especializada, formada pelo Tribunal Superior Eleitoral, pelos tribunais regionais eleitorais, pelos juízes e pelas juntas eleitorais. Esse desenho não é reproduzido da mesma forma em todos os países. Em algumas democracias, as eleições são administradas por comissões independentes. Em outras, a responsabilidade cabe a órgãos do Poder Executivo, autoridades locais ou estruturas descentralizadas. Também existem modelos mistos, nos quais diferentes instituições dividem as funções de organização, fiscalização e julgamento.
A diversidade institucional ajuda a explicar por que alguns países anunciam seus resultados poucas horas depois do encerramento da votação, enquanto outros necessitam de vários dias ou semanas.
Sistemas descentralizados, votos enviados pelo correio, recontagens e regras distintas de certificação podem prolongar a apuração. A rapidez é relevante, mas não é o único critério de qualidade.
A tecnologia pode acelerar a contagem dos votos; a confiança, porém, depende da credibilidade das instituições, da transparência dos procedimentos e da possibilidade de fiscalização. Eleições são necessárias, mas não suficientesApesar das diferenças, todos os sistemas democráticos enfrentam o mesmo desafio: transformar a vontade popular em autoridade legítima.
A realização periódica de eleições é indispensável, mas não basta, por si só, para definir uma democracia.
Regimes autoritários também podem organizar votações.
Uma democracia efetiva exige competição política real, liberdade de expressão, pluralidade de candidaturas, respeito às minorias, fiscalização independente e possibilidade concreta de alternância no poder.
As eleições criam uma cultura democrática compartilhada. Países trocam experiências, enviam missões de observação, desenvolvem padrões de integridade e aprendem com os acertos e erros uns dos outros.
Não existe um modelo eleitoral perfeito. Existem sistemas construídos dentro da realidade de cada país — sistemas que precisam ser permanentemente avaliados, fiscalizados e aperfeiçoados.
Entender essa diversidade é essencial para quem deseja debater política com responsabilidade.
A pergunta mais importante não é se determinado país copia o modelo de outro. A verdadeira questão é se o sistema garante participação, segurança, transparência e legitimidade.
No final, a força de uma eleição não está apenas na máquina, na cédula ou na velocidade da apuração. Está na confiança que a sociedade pode depositar no processo — e na disposição das instituições e dos cidadãos de preservar as regras democráticas.