A Palavra Esquecida

Paulo Rabello de Castro analisa por que a baixa poupança nacional limita os investimentos e ajuda a explicar o fraco crescimento econômico do Brasil.
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O crescimento da economia ou a falta dele (no caso do Brasil) é a constatação mais evidente do vigor ou da debilidade de uma nação, expressão sintética do sucesso ou fracasso do modelo político adotado para organizar uma sociedade na busca de sua prosperidade. Os economistas brasileiros têm falado cada vez mais de crescimento porque vem se tornando consensual que fracassamos na organização de nossas forças para obter avanços significativos de progresso.

Nosso ritmo adequado de crescimento foi perdido há quase meio século, mais precisamente a partir de 1979, período que coincide com a aceleração das economias asiáticas e, em especial, a expansão exponencial da China. Por volta de 1988, Brasil e China apresentavam economias de tamanho semelhante, sendo que nossa população era muito menor; portanto, tínhamos uma renda per capita cerca de cinco vezes maior. Nestes quase cinquenta anos, o Brasil andou muito devagar e nossa renda por habitante quase não evoluiu. Em compensação, o PIB chinês saltou para um tamanho cerca de 10 vezes o do nosso PIB. Qual o segredo chinês? Nenhum. O diferencial deles está apenas em lembrar sempre, e assim organizar as decisões coletivas do povo chinês, em torno da palavra por nós esquecida: a poupança.

Os economistas também costumam esnobar a poupança. Preferem tratar do espelho da poupança que, pelos livros acadêmicos, é o investimento. Os livros de economia ensinam que poupança e investimento se equivalem em qualquer situação. A equivalência contábil entre investimento e poupança facilita a vida de quem raciocina em termos econômicos porque significa dizer que não pode ocorrer investimento num país sem que haja uma poupança (interna ou vinda do exterior) que lhe dê lastro e concretude. O enorme crescimento chinês só aconteceu em função de muito investimento, por décadas a fio. Mas isso pressupõe que tenha havido, por parte do povo, das empresas e do governo chinês, décadas seguidas de fortes POUPANÇAS. E, de fato, as estatísticas econômicas da China mostram que o coeficiente de poupança, medido pela proporção de recursos não empregados direto em consumo, no total da produção anual, permaneceu nas alturas, em cerca de 40% do PIB, por várias décadas. Para se ter uma ideia do que isso representa em termos de esforço nacional, poupar 40% do que se produz é mais que o dobro da taxa de poupança brasileira, hoje inferior a 20% da produção anual. Aqui fixamos um conceito importante, porém frequentemente desprezado, até por profissionais da economia: uma taxa de crescimento espetacular, como a chinesa, só ocorre por obra de muito investimento que, por sua vez, requer equivalente esforço de poupança.

As empresas poupam por meio dos lucros que retêm no próprio negócio, a fim de reinvestir e crescer. As pessoas físicas também colaboram quando poupam – ou seja, quando deixam de gastar em consumo corrente – e depositam num fundo de investimento ou conta bancária remunerada, desde que o gestor desses depósitos encontre o caminho de um tomador que usará esses recursos na expansão dos seus negócios. Até o imposto pago pelo cidadão pode virar poupança, quando o governo, que cobrou o tributo, usa aquele recurso numa atividade de investir, não de consumir. Portanto, os lucros anuais de uma empresa são essenciais para formar um bolo de poupança para lastro de futuros investimentos. Idem, quando a família poupa diretamente ou contribui para um fundo previdenciário.

No Brasil, contudo, ocorre uma disfunção catastrófica, que decorre da maneira como o governo participa do mecanismo da poupança até o momento em que esta iria virar investimento. O governo age como um intermediário negativo nesse processo. Na ânsia de gastar em consumos diversos, o governo toma recursos das pessoas de diversas maneiras. O governo toma emprestado, fazendo dívidas, que serão nossas no futuro. E o governo também se apropria de recursos por meio de tributos e quando recolhe encargos previdenciários. Só que os tributos pagos pelas empresas e indivíduos, bem como os encargos recolhidos pelos segurados ao INSS não se convertem em investimento: na mão do governo, o que seria poupança vira gasto corrente. Uma vez alterado em sua destinação, o recurso poupado pelos particulares some na circulação social sem jamais se converter num investimento palpável. O governo brasileiro tem sido, por décadas, o grande destruidor da desejada poupança nacional. O desejo dos poupadores não vira realidade nunca.

Ao ensejo do debate eleitoral, vão aparecendo os traços do profundo desconhecimento da maioria dos presidenciáveis sobre o papel crucial da poupança para viabilizar a retomada do crescimento. Alguns, na sua ignorância quase pueril, ainda esbravejam que o endividamento público não é problema e que o esforço de controlar a despesa corrente é “bobagem”. Outros prometem controlar o déficit da previdência aumentando o custo para os segurados que já sacrificam larga parte do seu orçamento nesse pecúlio, ignorando que não há poupança nenhuma depositada nos cofres arrombados do INSS. As empresas e famílias brasileiras são, portanto, fraudadas continuamente em seu enorme esforço de intenção de poupança, já que os recursos tomados delas viram consumo para o governo, nunca os pretendidos investimentos. A tragédia brasileira de só crescer de lado persistirá até que apareçam candidatos capazes de entender e aplicar a palavra esquecida: poupança.     

As opiniões do autor nem sempre refletem uma posicão consensual da diretoria ou conselhos do Atlantico.

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