A Direita Adernou

A Lava Jato abriu espaço ao bolsonarismo, que transformou a direita em seita política e aprofundou a polarização no Brasil.
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Eu separo a história recente da política brasileira em dois períodos: antes de 2014 e depois de 2014 — antes e depois da Operação Lava Jato.

O que começou como uma ação de agentes do Estado brasileiro contra a corrupção transformou-se, graças ao seu sucesso, em um movimento de amplos setores da sociedade brasileira. Acontece que esse sucesso subiu à cabeça do juiz Sérgio Moro e dos procuradores liderados por Deltan Dallagnol e o grupo perdeu a mão a ponto de transmitir à população a ideia de que a política era, em si, uma atividade vil.

O tempo e as atitudes do grupo revelaram que a intenção de muitos de seus integrantes não era apenas limpar a política, mas substituir sua pele por outra nova — uma pele na qual eles próprios estariam inseridos.

Jair Bolsonaro, então em seu sétimo mandato de deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro, líder de um sindicato informal de policiais, recrutas, cabos, sargentos, tenentes e capitães, percebeu o vazio criado pelos operadores da Lava Jato e ocupou o espaço.

Embora fosse um desfrutador profissional da política, Bolsonaro realizou a proeza de apresentar-se como alternativa contra ela — e foi eleito Presidente da República.

O inaugurado ódio à política e aos políticos foi estimulado ao ponto de se sugerir a morte do candidato que melhor representava o sentimento popular daquele momento. Eleito pelo ódio, Jair Bolsonaro governou com ele. E o ódio reorganizou a sociedade em dois pólos: direita e esquerda.

José Ortega y Gasset, em “A Rebelião das Massas”, afirma: “Ser de esquerda, como ser de direita, é uma das infinitas maneiras que o ser humano pode eleger para ser um imbecil: ambas são, de fato, formas de uma doença moral”. A política brasileira confirma e agradece.

Na metade do mandato do Presidente Jair Bolsonaro, surgiu a pandemia: “E olhei, e eis um cavalo amarelo; e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, com fome, com peste e com as feras da terra” (Apocalipse 6:8).

Ao igualar todos diante do risco da morte, a pandemia poderia ter sido uma oportunidade para pacificar os ânimos e substituir o ódio pela solidariedade. Jair Bolsonaro, no entanto, preferiu montar no cavalo amarelo. Apavorado com a possibilidade de desaceleração da economia e dos efeitos disso sobre sua reeleição, o presidente esticou a corda ao limite.

Quem pediu cautela foi tratado como inimigo. A pandemia não uniu o país; por ação direta do Presidente da República, dividiu ainda mais a sociedade entre os dois pólos: esquerda e direita e a imagem de uma direita e de uma esquerda movidas pelo ódio substituiu o conceito de adversários pelo de inimigos mortais.

Quando os pólos políticos deixam de ser adversários e passam a ser inimigos, a convivência entre os contrários transforma-se numa questão de vida ou morte — ambiente em que vale tudo para garantir a sobrevivência. A alternância de poder deixa de ser uma virtude democrática e passa a ser percebida como uma ameaça existencial.

O polo chamado de esquerda, embora fora do poder naquele momento, permanecia mais profundamente inserido nas estruturas do Estado e utilizou todos os mecanismos disponíveis para expulsar os inimigos.

Nesse momento, Lula voltou ao cenário político, venceu a eleição de 2022 e abriu espaço para que seus aliados — especialmente agentes do próprio Estado — avançassem sobre os inimigos para aniquilá-los sem piedade, estivessem eles onde estivessem. Espezinhados, maltratados, vilipendiados, os componentes da direita deveriam se unir e organizar uma estratégia sólida para retornar ao poder.

Mas não é isso o que acontece. E por uma razão simples: Jair Bolsonaro não construiu um polo político, nem o estimula, nem tem qualquer interesse nele. Ele constituiu uma seita, que demoniza qualquer pessoa — inclusive aliados — que tenha o atrevimento de discordar do iluminado “mito” e de seus porta-vozes. Porta-vozes que são poucos, já que apenas os filhos homens — Flávio, Carlos, Eduardo e, mais recentemente, Renan — parecem autorizados a exercer esse papel.

Como sair desse nó?

Só a direita pode construir a saída. Mas, para isso, terá de abandonar de vez a lógica sectária e constituir-se, de fato, como um polo político maduro. Precisará jogar Jair Bolsonaro ao mar para livrar-se do peso que faz a direita adernar.

As opiniões do autor nem sempre refletem uma posicão consensual da diretoria ou conselhos do Atlantico.

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