Publicado originalmente na Revista IBEF de Feveireiro de 2026
Em 1494, recorrendo ao “direito internacional” daquela época – personificado no Papa da Igreja de Roma – Portugal e Espanha estabeleceram a divisão do Novo Mundo, então largamente desconhecido, entre o oeste e o leste de um meridiano imaginário, por meio de um Tratado que ficou conhecido pelo nome da cidade espanhola onde foi assinado: Tordesilhas.
Meio milênio após aquela iniciativa de conquistas ibéricas, o globo terrestre – e tudo que há nele – ainda é disputado de maneira semelhante, embora com novas armas e narrativas. Um desses protagonistas de conquista é a América de Donald Trump e outra potência é a China de Xi-Jinping, embora haja outros atores na disputa, como a velha Europa, o Islã, o “Império russo” e até a Índia. Num passado recente, ainda estaria, nessa lista de “países expansionistas”, o Japão. Portanto, para entender melhor as ações do atual presidente norte-americano e da política estratégica dos EUA, precisamos enquadrar as ações de Trump num contexto de projeção das disputas de poder que deverão acontecer em décadas futuras.
Trump personifica a insatisfação americana com um mundo que já não é mais o que resultou da Segunda Guerra Mundial, onde o poder militar dos EUA ficou evidenciado no planeta inteiro – que os historiadores apelidam de Pax Americana cujo momento mais afirmativo se deu pelo desmanche do bloco soviético em 1991, daí resultando o fim da contestação soviética ao predomínio dos EUA. O comunismo, como regime político, até continuou existindo – na China por exemplo – mas sem possibilidade de projetar poder geopolítico. A Pax Americana durou pouco tempo em cotejo com outros impérios da história mundial.
Apenas quatro décadas foram suficientes para se ver surgir um novo ator de projeção de alcance mundial, a China, com seu crescente protagonismo econômico, tecnológico e militar. Com uma diferença de atuação: a China se projeta por meio de uma dominação “suave”, baseada numa narrativa de cooperação no seu expansionismo. Ao mesmo tempo, o império americano vem perdendo força financeira e projeção geopolítica, especialmente após a grande recessão decorrente da bolha financeira de Wall Street (2008). Os EUA são hoje uma nação atormentada pelo fantasma das “contas a pagar”. A dívida federal dos EUA mais do que dobrou e continua ameaçando a “grandeza” ambicionada pelo povo daquele país.
Trump é um líder que compreendeu bem esse drama da rápida perda de protagonismo dos EUA. Sua plataforma política não deixa de ser uma proposta de fazer o “turn-around” dos USA Inc. pois é como uma grande empresa sob sua gestão que Trump enxerga os Estados Unidos da América. Não é outra a razão do seu lema de campanha: “Vamos resgatar a grandeza da América”. Nesse sentido, a proteção territorial dos EUA, a unidade de propósitos interna, o reforço das bases comerciais e financeiras do país, tudo isso passa a ser prioridade na agenda de longo prazo de Trump, superando considerações como o acolhimento de imigrantes, a conservação do meio ambiente, a defesa de países aliados, e até a vigência de tratados assinados por outras administrações e outros compromissos assumidos no passado.
A nova Doutrina Trump de convivência externa bate de frente contra o mundo das leis e dos princípios de direito internacional lavrados no pós-guerra, que deram origem a organismos multilaterais como ONU, Banco Mundial, FMI, OMC, hoje quase decorativos ou moribundos. Trump apenas escancarou uma realidade que precede aos seus ataques demolidores contra crenças e agências políticas do mundo das “nações unidas”. Como empresário da construção, Trump vem demolindo o que encontra no caminho, na expectativa de construir algo novo, à sua maneira, embora muitos não percebam qualquer lógica em seus atos e blefes. Mas a pergunta sobre a racionalidade de Trump se torna quase irrelevante diante dos fatos por ele consumados nos últimos meses.
Trump tem pressa, pois seu relógio político e biológico corre muito mais rápido do que na China de Xi. Daí o visível atropelo das ações por ele iniciadas no cenário mundial. Mais do que a razão do petróleo que é forte, a intervenção na Venezuela atende à pressão do relógio de Trump. Trump não pode esperar pela edição de uma bula papal, no caso a aprovação do Congresso americano, para suas incursões. Ele mesmo age como Sumo Pontífice e parte interessada. Trump também percebe que dispõe de pouco tempo para capturar a Groenlândia, assim como criou para sua equipe vários “deadlines” de tempo na busca de solução para os conflitos em Gaza e na Ucrânia. O mesmo em relação à provável mudança de regime no Irã. O expansionismo estratégico de Trump está baseado em fatores econômicos e militares ao mesmo tempo.
Trump é prático em sua folia. Sabe que a Pax Americana não é mais alcançável. Pretende ter protagonismo numa Pax Bellica, ou seja, numa Paz Armada, mas ainda livre de conflitos sangrentos, se possível. A China já teria concordado com esses novos termos de uma Pax Bellica, embora restem, entre as duas maiores potências, alguns formidáveis pontos de fricção, como o status da ilha de Taiwan. A relação dos EUA com a Rússia é mais complicada por causa da frustração desta com o sonho czarista de Pedro, o Grande. A Rússia se tornou a pedra no sapato da Europa Comunitária, o outro bloco mundial, formado sob uma bandeira de socorro recíproco. Formou-se, assim, uma nova arquitetura triangular na Pax Bellica atual, cujos vértices estão nos EUA, na China e na Europa. A Rússia gostaria de ver aí mais um vértice por ela controlado, mas sua força se resume hoje apenas à ameaça nuclear que ela projeta no tabuleiro mundial.
O mundo do século 21 desemboca numa estrutura de BLOCOS DE PAÍSES. A grande maioria dos países terá que fazer opções políticas de pertencer a este ou àquele bloco. Poucos poderão jogar com relativa independência e, entre esses poucos “solteirões no baile de poder”, estão a Índia e, com boa vontade, o Brasil. O Quadro 1 apresenta o que seria o mundo em Blocos, ou a BLOCALIZAÇÃO mundial, em oposição à antiga ordem política, a da Globalização, que ocorreu inteiramente sob domínio norte-americano.

Num exercício, até certo ponto arbitrário, de repartição do mundo em Blocos, a RC Consultores procurou determinar a “força econômica relativa” de cada bloco, conforme o Quadro 1. Os “solteirões” mantidos à parte não formam um bloco independente, tentando jogar conforme seus interesses pragmáticos. É o caso da Índia e do Brasil que, juntos, comporiam um PIB de mais de US$ 6 trilhões. No Quadro 2, se apresenta uma pizza do PIB mundial (dados de 2024) cujo total se aproxima de US$ 110 trilhões, dos quais quase metade (46%) é representada pelo bloco Americano, liderado pelos EUA. A Europa, como bloco, fica com cerca de 23% e o bloco que chamamos de Sino-russo-islâmico (com cerca de 21%) vem em seguida.

A briga geopolítica, nos próximos anos, será com cada bloco tentando “roubar o monte” dos demais líderes, cada protagonista de bloco procurando atrair para dentro da sua comunidade mais parceiros (“noivas”) interessantes. Portanto, a geopolítica da Blocalização é, por definição, instável e sujeita a reavaliações periódicas e conflitos praticamente permanentes, como os que, neste momento, ocorrem em várias regiões geográficas do planeta.
Dois elementos decisivos nesse processo de Blocalização determinarão o tamanho futuro de cada bloco e a eventual formação de algum novo bloco, sob qualquer outra liderança. Esses dois elementos são a população e a taxa de crescimento econômico de cada país. Seria preciso projetar essas duas dimensões no cenário de 2050 e para além da metade do século. A RC fica devendo tais projeções em outro estudo mais alentado. Contudo, ao colocar as informações referentes às populações atuais de cada país, podemos perceber, nos Quadros 3 e seguintes, que há disparidades significativas entre os blocos. Enquanto bloco, a Europa tem hoje a maior renda per capita e, em compensação, a população menos expressiva. O bloco americano tem renda bastante alta, mas puxada pelos EUA, Canadá e Japão. O bloco Sino-russo-islâmico é bem mais pobre, porém muito populoso. Enfim, haverá transformações importantes na dinâmica populacional e econômica dentro e fora desses três blocos assim definidos.



É nesse novo contexto de uma Pax Bellica que o Brasil precisa se situar para jogar em benefício de seus interesses. Mas, afinal, que interesses seriam esses? Não temos resposta pronta para essas perguntas. O segmento político do País permanece ocupado numa disputa paroquial pelos orçamentos públicos e pelo loteamento interno de cargos. A manipulação assistencialista do exercício do voto é intensa e desabrida. A alienação da população frente aos desafios planetários é absoluta e total. Portanto, apenas um meio milagre divino traria o Brasil, sob uma liderança renovada, à unidade de propósitos nacionais capaz de voltar a projetar nosso País como força relevante no mundo da Blocalização e da Pax Bellica.