A Comissão Especial da Câmara dos Deputados destinada a examinar o Plano Nacional de Educação, aprovou o projeto do Poder Executivo com quase 5 mil emendas. Barbaridade!
Encontrei no volume 1 da série História da Civilização, do historiador Will Durant, o seguinte relato:
“Conhecemos a mãe de Mêncio (discípulo de Confúcio) porque os historiadores chineses fizeram dela o modelo das mães e contam muitas histórias a seu respeito. Segundo essas histórias, várias vezes mudou ela de residência; uma porque, morando perto de um cemitério, seu filho começou a comportar-se como um armador funerário; outra porque, morando perto de um matadouro, o mesmo passou a imitar muito bem o grito dos animais sacrificados… por fim, estabeleceu-se perto de uma escola e ficou satisfeita.”
No Brasil todo, a mãe de Mêncio continuaria a buscar um lugar seguro para o filho, pois as escolas — principalmente as públicas — têm traficantes e milicianos como vizinhos e, por isso, vivem sob a influência do crime.
O que isso representa?
Busquei a resposta numa pesquisa publicada em 2018 na revista Trends in Cognitive Sciences. Dois professores de psicologia e pesquisadores, Ike Silver e Alex Shaw, são os autores. O artigo, “Public Relations: The Development of Reputation Management”, defende que, por volta dos cinco anos de idade, as crianças entendem que ser bem ou mal vistas pelos outros tem consequências e, por isso, ajustam o comportamento pessoal quando se sentem observadas.
As crianças gerenciam a própria imagem. Elas testam identidades para avaliar qual papel social lhes rende mais aceitação, admiração, respeito — e medo. A criança começa a se comportar de maneira mais generosa quando está sendo observada e quando sabe que sua imagem está em jogo.
Nas comunidades pobres do Brasil inteiro, há um espelho que mostra para as crianças o traficante armado com cordão de ouro, o chefe do morro que distribui dinheiro e adquire respeito pelo medo, e o jovem que, promovido na carreira do crime, torna-se referência positiva.
Se, desde os cinco anos, a criança já entende que reputação importa, ela também percebe muito cedo quem é tratado como “alguém” e quem é tratado como “ninguém”. E assim, como todo ser humano, ela quer ser tratada como alguém — e nunca como ninguém.
A linha de raciocínio dela pode ser simples e devastadora:
“Quem manda aqui é o cara do fuzil. Quem é respeitado é quem está com ele. Logo, se eu quero ser alguém, preciso estar perto dele. Preciso ser ele.”
A situação se agrava quando a sociedade desqualifica o policial em benefício do criminoso.
Nas comunidades dominadas pelo crime, o “público” que observa as crianças não é o professor, mas o olheiro, o soldado, a namorada cobiçada, o chefe da boca. A criança aprende a ser “generosa” e leal com essa estrutura criminosa.
Quando o tráfico se apresenta como carreira, ele oferece exatamente aquilo que uma criança, aos cinco anos, já é capaz de perceber como valioso: ela vê que quem está no crime não espera anos por um diploma para ser “respeitado”.
O diploma não é mais o caminho para as roupas e tênis de grife, para as correntes de ouro, para a credencial de entrada nos ambientes de festa. O sucesso pessoal está em mandar pelo medo, ter dinheiro fácil e ser reconhecido por isso.
Agora, vejam que coisa curiosa acontece quando transferimos essa situação para a política… Que exemplos a política tem oferecido para as crianças? Para alcançar o sucesso na política, vale mais a escola e a dignidade ou a complacência com o crime?
One Comment
O artigo aqui publicado é perfeito. E coincide, de uma certa forma, com a declaração de Quincy Jones, no documentário sobre a sua vida (Netflix): vivendo numa favela em Chicago, nos anos 30, a única perspectiva de vida era ser criminoso. Até essa época, eu nunca tinha visto um homem branco. Você quer ser aquilo que você conhece.
O presente artigo nos direciona para a priorização da educação de qualidade, fundamental e urgente. Com a classe política atual, não vejo solução pragmática para o problema. O “salvador” ainda não surgiu nos tempos atuais.