No sábado, comemorou-se a Proclamação da República — um fato que o presidente Eurico Gaspar Dutra considerou tão importante quanto a Independência do Brasil, a Inconfidência Mineira, o primeiro dia do ano e o nascimento de Jesus Cristo. Foi ele quem transformou todas essas datas em feriados nacionais, usando a mesma lei. Exagerou, pois a Proclamação da República não merecia tanto. E, pelo que se tem visto da República Brasileira, talvez não merecesse coisa alguma — a começar pelo fato de que o novo regime nasceu sem povo.
Se formos mais exigentes com o conceito de cidadania, a República permanece, até hoje, com o mesmo defeito.
Sempre recomendo que, no feriado da Proclamação da República, se reserve algum espaço da agenda para visitar Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi, do imortal (e esse, de verdade, faz jus ao título) José Murilo de Carvalho, falecido em agosto de 2023. “Em frase que se tornou famosa”, escreve José Murilo logo no início, “Aristides Lobo, propagandista da República, manifestou seu desapontamento com a forma como o novo regime foi proclamado. Segundo ele, o povo, que pelo ideário republicano deveria ser protagonista, assistiu a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, imaginando ver talvez uma parada militar”.

O autor também cita o médico Louis Couty: “Seria fácil alinhar várias citações apontando na mesma direção. Basta-nos, porém, recordar outra frase famosa, agora do sábio francês residente no Brasil, Louis Couty. Ao analisar a situação sociopolítica do país, ele concluiu que ela poderia ser resumida assim: ‘O Brasil não tem povo”.
O Rio de Janeiro — então capital federal, cidade portuária, palco de tensões entre elites e classes populares — aparece no livro como o laboratório perfeito para observar o impacto da República na vida urbana. Os dados trazidos por José Murilo para o livro identificam a formação do povo carioca e pode, quem sabe, explicar a razão do nosso maior problema.
José Murilo mergulha em processos judiciais, crônicas, jornais populares e registros policiais para revelar como as camadas populares reagiram à novidade e como a novidade, a República, reagiu a elas. A relação entre Estado e povo permanece muito parecida até hoje, o que faz de Os Bestializados uma obra indispensável para entender a formação política do brasileiro.
Já recorri ao livro algumas vezes — uma delas durante a pandemia — pela semelhança entre o comportamento dos negacionistas da vacina na COVID-19 e os protagonistas da Revolta da Vacina, no início da República. José Murilo dedicou um capítulo inteiro aos Cidadãos Ativos: A Revolta da Vacina. Neste capítulo, explica ele, “tentaremos captar um pouco do que seria a concepção de direitos e deveres nas relações entre indivíduos e Estado, embutida na mais espetacular ação popular da época”. Na conclusão, José Murilo sintetiza: “Nossa discussão girou em torno de três temas e das relações entre eles: o tema do regime político (a República), o tema da cidade (Rio de Janeiro) e o tema da prática popular (cidadania)”.
Ler Os Bestializados é sempre um exercício de reflexão sobre as consequências reais da República. Você já leu Os Bestializados? O que já leu de José Murilo de Carvalho? Ele escreveu muito — e, especialmente, sobre o povo brasileiro.