Ricardo Stucker é o fotógrafo oficial do Lula desde o primeiro mandato dele na Presidência da República e é autor da foto veiculada durante a semana, onde estão, com braços para o alto, como se estivessem sendo rendidos, os cinco Chefes de Estado no reunidos no Chile, na segunda-feira, numa “aliança em defesa da democracia”. Os chefes do Brasil, Chile, Espanha, Colômbia e Uruguai tinham sob a cabeça uma faixa com a frase “Democracia Siempre”. O Presidente da Colômbia, Gustavo Petró resumiu o motivo do encontro: “O progressismo global deve se unir ao redor do mundo e acender a luz quando a escuridão cair”.

Portanto, no evento, o conceito de democracia abstraiu as oposições. Algo bem ao gosto dos mais destacados ditadores do planeta e da História. Ora bolas, uma eleição democrática não elege exclusivamente governos, mas de igual modo, as oposições. Quem venceu governa; quem perdeu, opõe-se em nome dos eleitores derrotados. Assim sendo, o poder ser exercido pelo povo, tanto pela maioria dele como pela minoria.
Citei o autor da foto, Ricardo Stuckert, porque ao bater o olho no nome dele, me veio à memória o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, disponível na Netflix e indicado ao Oscar em 2020. O trabalho do Ricardo Stuckert está exibido no documentário.
Petra Costa narra o documentário na primeira pessoa, com um texto primoroso. Ela descreve o período entre o final do primeiro governo Lula, passando pelo impeachment da Presidente Dilma e pelos movimentos que levaram Jair Bolsonaro à Presidência da República. Para facilitar a compreensão de toda a peça, Petra retorna, rapidamente, ao tempo dos generais, para quase no final do documentário, declarar: “O país está avançando rapidamente rumo ao seu passado autoritário. Hoje, enquanto sinto o chão se abrir debaixo dos meus pés, temo que a nossa democracia tenha sido um sonho efêmero”. Ela também ressalta: “Eu votei no Lula (estamos na primeira eleição dele) com a esperança que ele reformasse eticamente o sistema político, mas lá estava ele repetindo práticas que ele sempre criticou e formando alianças com a velha oligarquia brasileira…”
Revendo o documentário com a atenção voltada para os movimentos que ocorrem na política brasileira no momento, eu não tenho dúvidas da semelhança, com o sinal trocado, entre o modo como agiu a Justiça com relação ao Lula e aos aliados dele no passado e como ela age hoje com relação ao Jair Bolsonaro e os aliados dele. Nesse carretel, o Brasil está enroscado, ocupado demais com os temas, Lula versus Bolsonaro, golpes versus democracia. Empacamos!

Jackson Vasconcelos é consultor, estrategista político e membro do ATLÂNTICO. Atua no mercado de campanhas eleitorais e gestão de mandatos desde 1982. Estudou Economia e Ciência Política na Faculdade Católica de Brasília. Em 1999, constituiu empresa para se dedicar totalmente às campanhas e participou do processo eleitoral em eleições majoritárias e proporcionais no Estado do Rio de Janeiro desde então. Conduziu também campanhas para presidente do Fluminense Football Club, entre outras instituições. É autor de “Que Raios de Eleição é Essa?”(2017) e “O Jogo dos Cartolas: Futebol e Gestão” (2015).
O artigo acima não representa, necessariamente, a opinião do Atlântico.
One Comment
Infelizmente este é o nosso País. O que vemos hoje entre Direita e Esquerda é o que víamos nos governos de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, José Sarney, Collor de Mello, etc., etc., etc,… Bolsonaro e Lula. Quem está no Governo considera a Oposição inimiga do Brasil. Quem está na Oposição considera o Governo corrupto e péssimo Administrador dos recursos públicos. É isso. Nada muda, Infelizmente!!!