O Algoritmo que elege

Algoritmos das redes sociais passaram a influenciar a formação da opinião pública e podem se tornar decisivos nas eleições e nas campanhas políticas.
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Durante muito tempo, a política foi uma atividade profundamente presencial. A formação de opinião passava pelo comício na praça, pela conversa no bar, pelo debate no sindicato, pela missa de domingo ou pela reunião de bairro. O eleitor conhecia o candidato, ou ao menos conhecia alguém que o conhecia. A política circulava pelo tecido social real.

Hoje, esse mundo ainda existe — mas deixou de ser o principal campo de batalha.

As eleições contemporâneas são cada vez mais definidas por algo muito menos visível: o fluxo de informações dentro de redes sociais e aplicativos de conversa. Em vez da praça pública, o principal palco da política passou a ser o feed do celular. E, nesse ambiente, quem organiza o debate não é um mediador humano. É um algoritmo.

A consequência é profunda. Uma parcela crescente da opinião pública é formada por opiniões sobre acontecimentos que as pessoas nunca presenciaram, por análises de indivíduos que nunca conheceram e por conversas que nunca escutaram diretamente. Um vídeo de 30 segundos no celular pode substituir uma experiência inteira da realidade. Uma thread viral pode moldar a percepção de milhares de pessoas sobre um tema complexo que exigiria horas de leitura.

O eleitor moderno, em muitos casos, não está reagindo ao mundo real. Ele está reagindo a uma narrativa digital sobre o mundo real.

Essa mudança altera completamente a lógica das campanhas eleitorais. Antigamente, a prioridade era mobilizar militantes, organizar eventos, distribuir santinhos e garantir presença física nas comunidades. Hoje, embora tudo isso ainda exista, grande parte da disputa acontece dentro de plataformas digitais que operam com regras próprias — muitas vezes invisíveis.

Nesse ambiente, o alcance de uma mensagem não depende apenas do que é dito, mas de como os algoritmos das plataformas decidem distribuí-la.

Cada curtida, compartilhamento, comentário ou tempo de visualização alimenta sistemas automatizados que selecionam o que cada pessoa verá em sua tela. Esses sistemas não foram criados para fortalecer o debate público ou qualificar a democracia. Eles foram criados para maximizar atenção, engajamento e tempo de permanência nas plataformas.

O resultado é que conteúdos emocionalmente intensos, simplificados ou polarizadores tendem a circular mais rapidamente do que análises equilibradas ou argumentos complexos.

Assim, a política digital passa a obedecer menos às regras da razão e mais às regras da viralização.

Nesse contexto, surge um novo personagem invisível no processo eleitoral: o algoritmo eleitor.

Não é ele quem vota. Mas é ele quem decide quais mensagens chegam ao eleitor.

Se uma postagem aparece no feed de milhares de pessoas ou desaparece silenciosamente na imensidão da internet depende cada vez mais de sistemas automatizados que priorizam determinados padrões de conteúdo. O candidato pode falar diretamente com o público, mas antes precisa atravessar o filtro invisível dessas máquinas de distribuição de informação.

Isso cria uma nova exigência para os políticos.

Além de saber conversar com seus eleitores, eles precisam aprender a conversar com algoritmos.

Significa entender o funcionamento das plataformas, dominar a linguagem da internet, produzir conteúdo que gere engajamento e construir narrativas que se adaptem à lógica de circulação digital. Em muitos casos, a disputa eleitoral passa menos pelo convencimento direto e mais pela capacidade de ocupar espaço no ecossistema informacional.

Quem domina essa dinâmica tem uma vantagem estratégica.

Nas eleições brasileiras de 2026, essa realidade tende a se aprofundar. O país possui uma das populações mais conectadas do mundo, com uso intensivo de redes sociais e aplicativos de mensagens. A política já transita intensamente por esses canais, mas o próximo ciclo eleitoral provavelmente verá campanhas ainda mais estruturadas para operar dentro desse ambiente.

Estratégias digitais sofisticadas, análise de dados comportamentais, segmentação de públicos e produção massiva de conteúdo voltado ao algoritmo devem ganhar protagonismo.

Isso não significa que o mundo real desapareceu. O voto continua sendo depositado na urna por pessoas de carne e osso, com suas experiências concretas, suas dificuldades e suas aspirações.

Mas a interpretação dessas experiências — aquilo que transforma percepção individual em opinião política — passa cada vez mais por um intermediário invisível.

O algoritmo.

Compreender essa nova dinâmica talvez seja uma das tarefas mais importantes para quem deseja entender a política contemporânea. Não apenas para candidatos e estrategistas eleitorais, mas também para cidadãos.

Porque, no fim das contas, a pergunta central permanece a mesma:

Quem está moldando a opinião pública?

Durante séculos, a resposta foi simples: líderes, partidos, imprensa, instituições.

Hoje, a resposta ficou mais complexa.

Entre o político e o eleitor, existe agora uma nova camada de poder.

Uma camada escrita em código.

As opiniões do autor nem sempre refletem uma posicão consensual da diretoria ou conselhos do Atlantico.

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