Jair Bolsonaro e aliados foram condenados. Eles e seus advogados atribuíram à condenação a uma narrativa de um golpe. Se foi isso, a narrativa foi absolvida, portanto. Uma narrativa que o próprio Jair Bolsonaro ajudou a construir, quando dedicou o voto dele para o impeachment de Dilma Rousseff ao sombrio coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Pode ser que Jair Bolsonaro tenha feito da homenagem um contraponto à Comissão da Verdade, criada pela Presidente para “capturar” os militares anistiados. Mas, qualquer que tenha sido o motivo do voto, ele impregnou Bolsonaro com a imagem da ditadura instalada em 1964, que tem na imprensa e na oposição, ainda hoje, feridas não cicatrizadas.
Seguiu-se ao ato, a formação da chapa para a disputa pela presidência, com um general na posição de candidato a Vice. Isso ainda em 2018. Depois disso, às vésperas do segundo turno, o filho de Jair Bolsonaro, Eduardo, afirmou: “Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo”. Os generais em 64 não chegaram a tanto, mas cassaram três ministros da Corte nomeados por Juscelino e Goulart: Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva. E na onda foram Lafayette de Andrada e Gonçalves de Oliveira, que se aposentaram.
Antes da suspensão dos mandatos dos ministros, os generais quiseram aparelhar o STF para torná-lo dócil, com a decisão de criar mais cinco vagas na Corte. Não conseguiram o intento, então, suspenderam os mandatos.
Encerrada a eleição de 2018, veio a composição do governo com uma farta representação militar. Um ano após as posses, um dos filhos do presidente, novamente, Eduardo Bolsonaro, defendeu o retorno do AI-5 como resposta à uma possível radicalização da esquerda contra o pai. E, no dia 10 de agosto de 2021, com o propósito de receber um convite da Marinha para comparecer a uma solenidade da Força, Jair Bolsonaro determinou ou autorizou um desfile de tanques na Praça dos Três Poderes. No mesmo dia, na pauta do Congresso estava a votação da PEC para a implantação do voto impresso.
Passo a passo, portanto, Jair Bolsonaro construiu o cenário onde seria possível inserir a narrativa de um golpe de Estado com o apoio dos militares, algo semelhante ao que houve em 1964 e não tomou o cuidado de preservar o ambiente onde poderia ser julgado se tentasse um golpe. Ele, os filhos e outros aliados, passaram todo o tempo do governo empossado em 2018 e o período da campanha pela reeleição a agredir os componentes do Supremo Tribunal Federal.
Deu no que deu. Se a intenção era ou não um golpe de Estado, Pirandello pode responder melhor: “Così è (se vi pare)”.
Na verdade, na verdade, Jair Bolsonaro não esteve à altura do desafio que recebeu quando foi eleito Presidente em 2018: governar o Brasil para os brasileiros, tanto para os que o elegeram quanto para os demais, pois todos, rigorosamente, todos, pagam as contas daqueles que governam.