Muito além do Tarifaço

O temido anúncio das chamadas “tarifas recíprocas” americanas finalmente aconteceu no último 02 de abril – que Trump apelidou como “Dia de Libertação da América”. Com as plaquetas das novas tarifas em suas mãos, Trump lembrava o profeta Moisés, grande líder do povo hebreu, enquanto anunciava as Tábuas da Lei. A encenação bíblica não impediu que os mercados de ações desabassem mundo afora, trazendo uma realidade amarga para o valor do patrimônio das empresas e famílias americanas e crescente preocupação com uma provável recessão mundial. Os economistas de plantão também criticaram o “criacionismo” econômico contido na estranha fórmula de cálculo do tarifaço de Trump. Os analistas de mercado já projetam vários efeitos colaterais das tarifas, como pressões inflacionárias nos EUA e redução do nível do emprego, apesar de tal desdobramento ser o oposto da intenção de Donald Trump. O presidente americano, falando como profeta, ganhou a disputa eleitoral com reiteradas promessas de mais investimentos industriais em solo americano e mais postos de trabalho. Mas as primeiras reações das empresas pós-tarifaço refletem desconfiança sobre a direção dos custos de produção nos EUA. O rompimento das cadeias de suprimentos de insumos, ou seu encarecimento, fatalmente trarão recuo do nível da produção interna. A popularidade e o apoio político a Trump correm perigo neste momento.  

À primeira vista, as novas tarifas poderiam parecer improvisadas, ou então, destinadas apenas a punir certos países e regiões (como a Ásia) enquanto poupando outras, como a América Latina. Mas as novas tarifas foram determinadas com intuito meramente negocial e fiscal. Trump foi explícito na sua intenção de forçar os países exportadores mais superavitários – que estão sobretudo na Ásia – a sentar na mesa para oferecer vantagens comerciais e promover um reequilíbrio, ainda que parcial, dos déficits bilaterais americanos. Enquanto isso, os países mais introvertidos, localizados na América Latina, inclusive o Brasil, ficarão “de molho” – com uma tarifa básica de 10% – que até nos favorece, na medida em que as cadeias produtivas multinacionais poderão cogitar de importar partes e peças por meio de filiais ou fornecedores da nossa região. Mas tudo ainda é muito especulativo. Haverá rodadas sucessivas de negociação com os asiáticos e europeus, de modo que a tarifa média dos EUA, para o conjunto de países parceiros, não deverá passar dos 15%, com exceções em relação a certos bens, como petróleo, veículos, aço e alumínio, etanol e, claro, com sobretaxas às importações chinesas.  

Por trás do tarifaço, porém, há uma velada preocupação do governo trumpista com o explosivo percurso da dívida federal americana, hoje beirando a casa dos 120% do PIB. Essa enorme montanha de dívida – em boa parte em poder dos chineses – da ordem de 36 trilhões (sim, trilhões!) de dólares, representa o tendão de Aquiles da nação americana. Sob qualquer medida, o esforço anual de pagar juros, quando calculado sobre essa montanha de débitos, representará uma fatia crescente do orçamento do governo americano nas próximas décadas. É um panorama insustentável, embora sobre ele pouco se comente. Isso coloca sob forte estresse todo o arcabouço fiscal do governo, limitando ações de bem-estar social e saúde, além de deter as ações militares em defesa do vasto território dos EUA e dos seus vastos interesses em outros continentes. O valor do dólar como moeda de referência mundial está em risco. A grandeza americana, tão propalada por Trump, é o inverso da medalha: como gestor experiente, que já experimentou falências, ele conhece o cheiro e o gosto do perigo financeiro iminente. Trump tentará evitar uma ruína nacional. É o que ele, como bom marqueteiro, invoca como “fazer a América ser grande de novo”. A dívida federal dos EUA é três vezes maior, em percentagem do PIB, do que em 1980 (era de 40% na era Reagan, contra 120% do PIB hoje).  Reagan, em seu tempo, trouxe um empresário para apontar desperdícios no governo e tentou segurar gastos. Reagan também enfrentou o mesmo problema dos “déficits gêmeos”, a conjunção dos déficits externo e fiscal, ao mesmo tempo. Só que, desta vez, a vulnerabilidade financeira americana é três vezes maior em termos de dívida. Cortes de gastos expressivos e aumentos substanciais de receita fiscal se tornam urgentes. Trump escolheu o resto do mundo para dividir essa conta. Uma parte do esforço fiscal (cerca de 200 bilhões) viria da redução da conta da defesa global. Isso já está avisado aos europeus, aos israelenses e taiwaneses, além dos ucranianos. Outra parte do esforço virá de cortes nas despesas pelo departamento da Eficiência, leia-se Elon Musk (algo na faixa de 300 bilhões por ano em economias). O restante do esforço há de vir das “províncias do Império”, ou seja, dos parceiros comerciais. Os americanos importam cerca de $3.2 trilhões anualmente. Ora, uma tarifa média de 15% sobre esse valor de importações representaria uma receita anual na faixa de 500 bilhões. Deduzindo o montante hoje já arrecadado em tarifas, o ganho fiscal será algo como 300 bilhões. Quando somados aos outros 500 bilhões em cortes de despesas, o resultado de 800 bilhões de dólares anuais em ajustes fiscais se aproximaria do trilhão de dólares anuais necessário para cobrir os juros da dívida pública americana.

Esta é a matemática prática por trás do anúncio bombástico de Trump. Politicamente, ele não está errado ao vender o peixe desse formidável ajuste fiscal colocando, primeiro, o resto do mundo (a parte relevante deste) como principal fonte pagadora das contas do país líder. O problema é que a história não para por aqui. A China, pretendente ambiciosa à liderança desse mundo fraturado, que hoje se sente abandonado pelos EUA, vai se apresentar como o suave porto seguro para abrigo das embarcações nos maus tempos trumpistas.  Novos capítulos virão, e muito além do tarifaço da semana.

Paulo Rabello de Castro, formado em Economia e Direito, M.A. e Ph.D pela Universidade de Chicago, ex-Presidente do BNDES e do IBGE, fundador e sócio da RC Consultores. ​Fundador do Instituto Atlântico e da OSCIP Instituto Maria Stella. Fundou o Movimento Brasil Eficiente, que propõe uma simplificação da carga tributária e mais eficiência dos gastos públicos. É autor de mais de 10 livros, entre os quais O Mito do Governo Grátis, Rebeldia e Sonho e Lanterna na Proa.

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