Publicado originalmente no Estadão, em 29/07/2025.
A decisão do governo dos EUA de aplicar uma tarifa de 50% sobre as importações de produtos brasileiros, a partir de 1.º de agosto, representa, na prática, um embargo comercial. No setor de máquinas e equipamentos, essa taxação torna o comércio inviável. Os EUA são o principal destino das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos. Em 2024, o setor exportou US$ 3,54 bilhões – 26,9% do total exportado. Muitas das máquinas e componentes exportados pelo Brasil são utilizados por indústrias norte-americanas para montagem final ou produção de bens de maior valor agregado. Uma relação “ganha-ganha” – e que não pode ser rompida de forma unilateral.
Nesse comércio bilateral, o Brasil tem déficit. No ano passado, importamos dos EUA US$ 4,7 bilhões em máquinas e equipamentos, frente aos US$ 3,54 bilhões exportados, gerando um saldo negativo de US$ 1,16 bilhão para o nosso país, enquanto que na balança comercial total entre EUA e Brasil, os norte-americanos têm superávit. Isso enfraquece o argumento de desequilíbrio comercial para justificar as barreiras tarifárias.
Diante desse cenário, a Abimaq apoia os esforços do governo brasileiro em buscar uma solução diplomática. O melhor caminho é negociar um acordo que garanta a continuidade da relação comercial e evite prejuízos para empresas brasileiras e para as indústrias norte-americanas que dependem de nossos insumos. Há cerca de 3,9 mil empresas americanas com investimentos produtivos no Brasil com o objetivo de exportar seus bens e serviços, e essas companhias serão afetadas por uma tarifa dessa magnitude.
O setor já convive com a concorrência dos produtos asiáticos, em especial os chineses. Em 2024, as importações de máquinas e equipamentos da China no Brasil cresceram 20,4%. Agora, diante da possibilidade de sermos taxados com uma tarifa superior à aplicada à China pelos EUA, corremos o risco de perder ainda mais espaço.
Por isso, acreditamos que esse movimento norte-americano tem componente político e soa como uma tentativa de pressão para iniciar uma negociação sob vantagem. Se for esse o caso, o Brasil não deve recuar, deve propor um acordo comercial que amplie o intercâmbio bilateral e traga previsibilidade para os investimentos e exportações.
Reafirmamos, portanto, nosso compromisso com o diálogo e com a construção de soluções sustentáveis para o comércio internacional. O Brasil tem muito a perder com um distanciamento dos EUA e os EUA também têm muito a perder com um rompimento dessa relação histórica. Se o objetivo é proteger interesses nacionais, que o façamos negociando, e não erguendo barreiras.

José Velloso é engenheiro mecânico, administrador de empresas, presidente executivo da Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) e conselheiro do ATLÂNTICO Instituto de Ação Cidadã.
O artigo acima não representa, necessariamente, a opinião do Atlântico.