Todo início de ano traz o discurso do recomeço. Fala se em novas prioridades, metas e avanços. Em 2026, esse discurso ganha força com o calendário eleitoral. O ano muda, mas as promessas são antigas. Entre elas, a regularização fundiária volta ao centro do debate como se fosse novidade, vendida como solução rápida para um problema estrutural e historicamente negligenciado. Em ano eleitoral, o Brasil parece querer nascer com o título na mão.
Fora do período eleitoral, a realidade é outra. A regularização fundiária raramente é tratada como política pública contínua. Falta prioridade política, planejamento e compromisso institucional. Municípios enfrentam a informalidade urbana sem apoio técnico suficiente, enquanto estados e União adotam ações fragmentadas. O resultado é conhecido. Milhões de brasileiros seguem sem segurança jurídica, como se a informalidade fosse aceitável.
Esse apagamento não é casual. Regularizar exige planejamento de longo prazo, integração entre políticas urbanas, ambientais e sociais e decisões que não geram retorno político imediato. Por isso, o tema some quando é hora de governar e reaparece quando o objetivo é pedir votos.
À medida que as eleições se aproximam, o discurso muda. Surgem mutirões, entregas simbólicas de títulos e programas apressados. O problema não está na entrega do título, que é necessária, mas no caráter episódico dessas ações. Promete se o título, mas ignora se o processo técnico e institucional que garantiria sua efetividade.
Essa lógica já é conhecida. Sem reconhecimento jurídico, a propriedade não circula, não gera crédito e não se converte em capital. Tratar a regularização como promessa eleitoral, e não como política permanente, impede que milhões de famílias ingressem plenamente na cidade formal.
As consequências são concretas. Insegurança jurídica, dificuldade de acesso a serviços públicos, exclusão econômica e desigualdade territorial. A informalidade urbana não é apenas um problema fundiário. É um mecanismo de exclusão social. Regularizar não é favor de campanha. É dever do Estado. É garantir cidadania, segurança e pertencimento. O Brasil não precisa parecer que nasce com o título na mão a cada eleição. Precisa crescer com ele ao longo do tempo. Porque promessa velha, ainda que reapresentada como novidade, não constrói futuro. Apenas adia o país que insiste em não sair do papel.