“Eu acuso…!. A verdade em marcha”

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Ontem alguma coisa acendeu em mim uma vontade imensa de reler “J’accuse…!”. Não sei exatamente o quê. A carta é um clássico da literatura mundial, escrita por Émile Zola, endereçada ao Presidente da França, Félix Faure, publicada no jornal francês L’Aurore” em 13 de janeiro de 1898. O texto revela como a palavra pode intervir na história, expondo as engrenagens de um erro judicial e os preconceitos que corroíam a República francesa naquele momento.

Antes, Rui Barbosa fez o mesmo logo após a degradação do capitão Dreyfus, expulso do Exército numa cerimônia de humilhação pública. Rui escreveu um artigo em Londres, no dia 7 de janeiro de 1895, com o título “O processo do capitão Dreyfus”. Ele denunciou as falhas processuais, criticou o clima de clamor popular contra Dreyfus e a opacidade do processo militar. Exilado em Londres, Rui Barbosa afirmou que em cortes inglesas, tal situação — ou seja, julgamento à sombra de interesses escusos — jamais ocorreria.

O caso Dreyfus dividiu a sociedade francesa entre dreyfusards (defensores da inocência) e anti dreyfusards (favoráveis à condenação). Cada parágrafo da obra de Zola se constrói em forma de acusação direta contra militares, juízes e membros do governo, apontando responsabilidades pessoais. Ele foi processado e condenado por difamação, tendo de se exilar temporariamente. Mas seu gesto catalisou o debate público, contribuiu para a revisão do processo e, anos depois, para a reabilitação de Dreyfus.

O capitão Dreyfus ficou preso cinco anos – até obter o indulto presidencial – numa prisão distante da França, numa ilha isolada do mundo, sem comunicação. E não suficiente o isolamento, o governo mandou construir um muro em volta da cela para que Dreyfus não se comunicasse nem com os guardas. O lado mais cruel, no entanto, aconteceu quando um tenente-coronel, Georges Picquart, ao rever os documentos acostados no processo, descobriu a inocência do réu e identificou como verdadeiro culpado, o comandante Ferdinand Walsin Esterhazy. Picquart foi afastado e perseguido para que a inocência de Dreyfus não fosse reconhecida. Walsin foi inocentado.

Somente, doze anos após a condenação, em 1906, o capitão Dreyfus foi oficialmente declarado inocente pela Suprema Corte francesa e reintegrado ao Exército com o posto de major.

Se você não leu “J’accuse – A verdade em marcha”, estamos em bom momento para conhecer a obra.

Jackson Vasconcelos

Jackson Vasconcelos é consultor, estrategista político e membro do ATLÂNTICO. Atua no mercado de campanhas eleitorais e gestão de mandatos desde 1982. Estudou Economia e Ciência Política na Faculdade Católica de Brasília. Em 1999, constituiu empresa para se dedicar totalmente às campanhas e participou do processo eleitoral em eleições majoritárias e proporcionais no Estado do Rio de Janeiro desde então. Conduziu também campanhas para presidente do Fluminense Football Club, entre outras instituições. É autor de “Que Raios de Eleição é Essa?”(2017) e “O Jogo dos Cartolas: Futebol e Gestão” (2015).

As opiniões do autor nem sempre refletem uma posicão consensual da diretoria ou conselhos do Atlantico.

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