Nuvens de instabilidade econômica

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Nuvens de instabilidade econômica

Publicado originalmente no jornal Estado de Minas, em 18/062022.

Paulo Rabello de Castro

Nuvens de chumbo se aproximam da sociedade planetária. Vai chover forte. Tempos de tempestade escondem as mudanças e as oportunidades que virão acompanhando sofrimentos. Parte desses presságios vem da economia; outros tantos, da ambição humana, que não encontra limites quando se trata de disputar território, proeminência militar e supremacia.

As nuvens da economia já seriam pesadas, mesmo na ausência das complicações da política mundial. Na quarta-feira passada, o FED – banco central americano – fez um movimento brusco e tardio de elevação de juros. Brusco porque uma elevação de 0,75 ponto percentual no juro básico não se via desde a década de 1980. Tardio porque os compromissos políticos dos diretores do FED os impediram de agir ao primeiro sinal de perigo inflacionário. Ao tratar a inflação como “transitória” o diretor Powell cometeu grave erro de avaliação.

A subida do juro americano, apesar de significativa, parte de um patamar próximo a zero. Ainda tem muito chão pela frente até que o juro básico venha a refletir algo parecido com a inflação na casa dos 8%. Tal descompasso mantém a viabilidade orçamentária da rolagem da dívida pública dos EUA. Mas o momento de crise fiscal se aproxima. Não é exatamente algo confortável para o chamado Ocidente saber que o principal garantidor do balanço de forças do lado ocidental ameaça capengar justamente nas finanças. Discreta, mas atenta como nunca, a China se prepara para um lance de supremacia, usando a captura da pequena Taiwan como discurso moral. Uma recessão inflacionária nos EUA poderia ser um convite velado para iniciar a confrontação, que deixaria a atual guerra na Ucrânia parecer uma festa de São João.

A Europa joga também um jogo perigoso ao cutucar a Rússia de Putin onde mais lhe doem as costelas. A Ucrânia é um corredor de penetração natural para o coração da Rússia. O que para nós parece não ter maior importância, para os estrategistas russos é como uma adaga espetada a meros 500km da capital Moscou. O sonho da grande unidade europeia pode naufragar por excesso de passageiros nessa enorme Arca de Noé. Dentro dessa arca também estão embarcados os passivos bilionários das dívidas dos países-membros. Nem todos fazem o dever de casa como a Alemanha. Os alemães não conseguirão financiar os juros baixos dos endividados por muito mais tempo.

Se as nuvens se acumulam no horizonte mundial, aqui não tem problema: o tempo já está fechado há bastante tempo. Governo e Banco Central erraram muito na leitura da curva inflacionária. Agora, ao elevar nesta semana o juro básico (SELIC) para 13,75% as autoridades locais empurram o País para uma nova rodada de sofrimentos financeiros com inevitáveis e dramáticas repercussões no campo político.

O Brasil continua se destacando por suas nuvens pesadas e chuvas fortes.

 

 

Paulo Rabello de Castro, formado em Economia e Direito, Ph.D pela Universidade de Chicago, ex-Presidente do BNDES e do IBGE, fundador e sócio da RC Consultores. ​Foi Presidente do Instituto Atlântico e fundador da OSCIP Instituto Maria Stella. Fundou o Movimento Brasil Eficiente que propõe uma simplificação da carga tributária e mais eficiência dos gastos público. É autor de mais de 10 livros, entre os quais O Mito do Governo Grátis, Rebeldia e Sonho e Lanterna na Proa. 

 

 

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