Reforma Tributária? Mais um Engodo

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Tramitam no Congresso Nacional duas propostas de reforma tributária conhecidas como PEC 45 e PEC 110. Ambas tratam apenas dos tributos sobre o consumo, de longe os mais agressivos e sorrateiros, pois não aparecem nos preços de modo separado do custo efetivo dos bens e serviços.

Essas propostas não tratam, no entanto, de reformar a tributação como um todo; apenas dos monstrengos do consumo. As injustiças no Imposto de Renda, por exemplo, ficam de fora. Mas o risco dessas PECs é um pouco pior.

Pelo modo como as propostas em curso pretendem chegar a uma estrutura simplificada da tributação do consumo, é seguro que jamais atingirão tal objetivo. Os equívocos são gritantes. O mais bizarro deles: introduzir dois novos tributos – um IBS e um imposto Seletivo – que vão se somar (!) aos atuais, durante até 10 anos, num convívio incestuoso de tributos novos com antigos, com a promessa de, no futuro distante, acabar a duplicidade de cobrança.

Nem Alice no País das Maravilhas poderia colocar fé no compromisso de políticos eliminarem tributos 10 anos à frente! Mas há outras pérolas, como sobretaxar produtos e serviços do dia-a-dia (como escola, médico, alimentos e remédios, até livros) para trazer todos os itens da cesta de consumo a praticarem uma única alíquota de imposto, que estará na faixa dos 30%. A defesa que se faz de uma só alíquota – elevada – para todos os itens é inaceitável. Um nível único de imposto só faria sentido se a alíquota fosse baixa para todos, como em países onde se praticam taxas entre 5 e 18%, no máximo!

Esse é o nosso Brasil. Com o aplauso de alguns técnicos e professores desatentos e a complacência de parlamentares que não pedem informações, nem mandam rodar simulações das propostas antes de votar qualquer bobagem, estamos prestes a ver o Congresso Nacional votar uma proposta tributária que tornará, com certeza, o monstruoso sistema de impostos do País em algo ainda mais sinistro, mais injusto e duas vezes mais impraticável. Como recuperar uma Nação com tanta estupidez?

 

Paulo Rabello de Castro é economista, ex-Presidente do IBGE e do BNDES, escritor e fundador do ATLÂNTICO

Artigo publicado originalmente no Jornal Estado de Minas, em 14 de Abril de 2021. Clique para acessar

As opiniões do autor nem sempre refletem uma posicão consensual da diretoria ou conselhos do Atlantico.

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