Dívida não é desenvolvimento

Gustavo de Oliveira analisa por que consumo e dívida não sustentam o crescimento e defende investimento e produtividade para o Brasil.

Nos últimos anos, a economia brasileira conseguiu crescer mais do que muita gente esperava. O emprego aumentou, a renda melhorou e o consumo continuou relativamente forte.

Mas existe uma pergunta importante: esse crescimento é sustentável?

Um dos problemas está justamente na forma como estamos crescendo.

Entre 2021 e 2025, cerca de 70% do crescimento da economia brasileira veio do consumo das famílias. Outros 20% vieram do consumo do governo. E apenas cerca de 10% vieram dos investimentos.

E por que isso importa?

Porque existem basicamente duas maneiras de fazer uma economia crescer no longo prazo.

A primeira é consumir mais. A segunda é produzir mais e melhor.

Consumir mais pode acelerar a economia durante algum tempo. Mas, se esse consumo depende cada vez mais de gastos públicos, crédito e endividamento, em algum momento aparece a conta.

E ela já começa a aparecer.

De um lado está o governo. As despesas públicas cresceram mais rapidamente do que as receitas e a dívida pública brasileira voltou a subir.

Quanto maior a percepção de risco sobre essa dívida, maior tende a ser o prêmio exigido por quem empresta dinheiro ao país. E isso ajuda a manter os juros elevados.

Do outro lado estão as famílias.

O crédito também cresceu e milhões de brasileiros passaram a comprometer uma parcela maior da renda com prestações e juros.

E aqui está uma coisa importante: crédito não cria renda. Crédito antecipa consumo.

Você compra hoje usando uma parte da renda que ainda vai ganhar amanhã.

Quando governo e famílias fazem isso ao mesmo tempo, a economia pode até crescer mais rapidamente no presente. Mas vai acumulando compromissos para o futuro.

O resultado começa a aparecer na inadimplência, nas dificuldades do varejo e no número crescente de empresas enfrentando problemas financeiros.

Qual seria então um caminho mais sustentável?

Investimento e produtividade.

Precisamos produzir mais com os mesmos recursos: melhorar infraestrutura, tecnologia, educação, qualificação profissional e o ambiente para as empresas investirem.

Porque uma família não consegue aumentar indefinidamente seu padrão de vida tomando dinheiro emprestado.

Uma empresa também não.

E um país, no longo prazo, segue exatamente a mesma lógica.

Dívida pode comprar crescimento por algum tempo. Produtividade é o que transforma crescimento em desenvolvimento.

As opiniões do autor nem sempre refletem uma posicão consensual da diretoria ou conselhos do Atlantico.

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