Nova Previdência já, enquanto é tempo

A crise da Previdência exige um novo modelo de financiamento. Entenda como o imposto digital busca enfrentar o déficit estrutural.
Loading the Elevenlabs Text to Speech AudioNative Player…

A dinâmica previdenciária brasileira se tornou um ponto de instabilidade permanente dentro do orçamento público e coloca o país em rota clara de insolvência fiscal. Há décadas o debate se concentra em ajustes marginais, normalmente focados em idade mínima, regras de cálculo ou endurecimento de acesso aos benefícios. Essas mudanças, embora relevantes no curto prazo, não alteram a essência do problema: o sistema está apoiado em uma base de financiamento que deixou de existir. O uso da folha de salários como fonte primária de receita para a previdência tornou-se incompatível com a economia contemporânea, marcada por informalidade elevada, expansão de ocupações intermitentes, crescimento de vínculos sem registro e transformação tecnológica que reduz a demanda por trabalho formal. Persistir no modelo atual é insistir em abastecer um reservatório furado. A cada ano o buraco se alarga e o fluxo de água diminui. Não há combinação de remendos paramétricos capaz de reverter esse quadro. 

Os números são eloquentes. O déficit do Regime Geral de Previdência Social supera 330 bilhões de reais e cresce em ritmo bem superior ao da economia. As projeções fiscais indicam que essa diferença deve ultrapassar meio trilhão antes do fim da década. Ao mesmo tempo, a relação entre contribuintes ativos e beneficiários se aproxima de uma razão de 1,5 para 1, quando sistemas de repartição exigem proporções bastante mais altas para se manterem estáveis. A inversão demográfica agrava o quadro. A população idosa cresce rapidamente e a taxa de fecundidade está muito aquém da reposição. O resultado é uma curva de despesas previdenciárias que sobe de modo quase automático, enquanto a arrecadação derivada da folha de salários desacelera ou permanece estagnada. A conta não fecha hoje e fechará menos ainda amanhã. O país enfrenta uma bomba-relógio cujo mecanismo já está acionado e cujo estouro repercutirá diretamente na capacidade de financiar saúde, educação, segurança e investimentos públicos. 

Diante desse cenário estruturalmente insustentável, a solução não pode se limitar aos instrumentos clássicos. A questão é matemática: se a base contributiva desaparece, é necessário substituí-la por outra. A economia digital oferece essa alternativa. O Brasil desenvolveu, de forma excepcional, uma infraestrutura de pagamentos eletrônicos de amplitude inédita. PIX, cartões, transferências eletrônicas e sistemas de compensação movimentam diversas vezes o PIB anualmente. É uma base ampla, estável, automática e impossível de ser manipulada por mecanismos de evasão. Um imposto sobre pagamentos, que pode ser chamado de imposto digital, aproveita essa infraestrutura e cria um mecanismo de financiamento previdenciário compatível com o século XXI. A incidência se daria sobre qualquer operação de pagamento, sempre dividida entre pagador e recebedor, com alíquotas pequenas o suficiente para não impactar decisões econômicas, mas com base suficientemente grande para gerar arrecadação substancial. 

Pelos parâmetros simulados, cada 1 por cento de alíquota sobre a base total de pagamentos arrecadaria cerca de 500 bilhões de reais. Para garantir algo em torno de 1,5 trilhão de reais, suficiente para substituir integralmente a contribuição patronal ao INSS e estabilizar o fluxo financeiro do sistema, seria necessária uma alíquota total de 3 por cento, repartida em 1,5 por cento para cada ponta da transação. É uma taxa baixa quando distribuída sobre uma base de pagamentos que supera diversas vezes o PIB. O impacto individual é diluído, enquanto o impacto macroeconômico é altamente positivo. A eliminação da contribuição patronal reduziria o custo de contratação formal, combatendo um dos principais motores da informalidade. Empresas voltariam a empregar com menor custo marginal. Trabalhadores retornariam à formalidade sem que o Estado precisasse intensificar fiscalização. A base contributiva se recomporia de forma estrutural, não coercitiva. 

A crítica usual de que tributos cumulativos distorcem a economia perde força quando analisamos a natureza desse imposto digital. Ele não depende de declaração, não sofre manipulação via planejamento tributário e não é restrito a operações financeiras tradicionais. Ao incidir sobre pagamentos, independentemente de sua natureza, a arrecadação se torna automática e de baixíssimo custo administrativo. A alternativa, manter o modelo atual, perpetua a erosão da base, amplia o déficit e força o Estado a absorver parcelas crescentes do orçamento para financiar aposentadorias e pensões. A cada ano a despesa com previdência consome maior proporção dos recursos públicos. Em breve, o orçamento será engolido por esse componente, comprimindo áreas essenciais e inviabilizando a gestão do Estado. Não se trata de uma previsão alarmista, mas de um cálculo inevitável. 

O imposto digital não é uma escolha ideológica. É uma resposta técnica à inexorável mudança estrutural da economia. A folha de salários foi uma base tributária eficiente enquanto a economia industrial mantinha vínculos formais estáveis, longos e amplos. Esse mundo acabou. A nova economia opera com fluxos monetários eletrônicos permanentes e massivos. Ignorar isso é insistir na insustentabilidade. Trocar a contribuição previdenciária patronal por um imposto sobre pagamentos, preservando a exclusão de transações interbancárias, é transferir a carga para uma base compatível com a realidade contemporânea. O resultado é um sistema mais simples, mais eficiente e financeiramente estável. A previdência deixa de ser um risco sistêmico e volta a ser uma instituição sustentável. 

Não existe alternativa estrutural que possa equalizar o sistema com tanta precisão. O imposto digital desmonta a bomba-relógio, redistribui o peso fiscal, amplia a formalização e estanca o crescimento exponencial do déficit previdenciário. A opção oposta, manter o modelo atual, é adiar o colapso fiscal e impor ao país um custo que se tornará irreversível. O Brasil precisa escolher entre a insolvência anunciada e a construção de um novo modelo de financiamento previdenciário. A oportunidade existe e é tecnicamente sólida. Falta apenas a decisão política de enfrentar a realidade. 

As opiniões do autor nem sempre refletem uma posicão consensual da diretoria ou conselhos do Atlantico.

Carta Aberta aos Congressistas Eleitos

Instituto Atlântico apresenta carta aberta aos congressistas eleitos em 2026 com propostas para equilíbrio fiscal,…

DIREITA VOLVER!

O resultado das urnas aponta para uma mudança de ciclo político e econômico. O desafio…

Latif, Cafardo e um plano de governo

Educação, desigualdade e futuro: por que o Brasil ainda enfrenta desafios apontados há quase um…

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *