Publicado originalmente no perfil do autor no Linkedin.
O mercado brasileiro erra previsões econômicas — isso é esperado, até aí nada demais.
Mas a pergunta mais interessante é: esses erros são totalmente imprevisíveis?
Analisei 22 anos de previsões do Boletim Focus do Banco Central para quatro variáveis chave da economia:
- Inflação (IPCA)
- Crescimento do PIB
- Taxa Selic
- Câmbio
Alguns resultados chamaram atenção:
1. O mercado acerta mais o PIB do que o restante das variáveis
As previsões de crescimento econômico são, em média, mais próximas do observado do que as de inflação, juros e câmbio.
2. Existe um padrão de otimismo ao longo do tempo:
- PIB tende a ser superestimado
- Inflação, juros e câmbio tendem a ser subestimados
3. Parte dos erros não é aleatória, como não seria esperado se as expectativas fossem “racionais”.
Ao testar informações que já estavam disponíveis no momento das previsões (como inflação passada e taxa de juros), aparece um ponto importante: alguns erros poderiam ter sido antecipados, ou seja, não refletem apenas choques imprevisíveis — há indícios de uso incompleto da informação disponível.
4. O que isso sugere?
Em conjunto, os resultados sugerem que as expectativas não são totalmente racionais no sentido estrito: há evidência de viés e de uso incompleto da informação, com um comportamento mais próximo de regras adaptativas.
5. Por que isso importa?
Se as expectativas incorporam a informação de forma incompleta:
- Processos de desinflação são mais lentos
- A política monetária restritiva precisa agir por mais tempo
- Estímulos à economia funcionam, mas ao custo de inflação e queda de salários reais
- Projeções de mercado podem ter vieses sistemáticos
Escrevi uma análise completa, com metodologia e testes, para quem quiser se aprofundar (neste link).