“Vendidos como animais, são comprados às centenas pelos donos de grandes propriedades, que os submetem ao controle de um capataz – na maioria das vezes, pior do que o próprio senhor(…) Os maus-tratos(…) obrigam-os por vezes a fugir para o mato e a viver aí pilhando tudo o que encontram pela frente, vingando-se de certo modo dos tormentos que lhes foram impostos”.
“Em 1681, um grupo de moradores de Pernambuco reclamou, de forma desanimadora: ‘As nossas campanhas com os negros de Palmares não têm tido o menor efeito. Eles parecem invencíveis”.
Estão aí duas passagens do primeiro livro da trilogia Escravidão, de Laurentino Gomes. Ele dedicou os dois últimos capítulos da primeira obra ao Zumbi dos Palmares.

Para a grande maioria do povo brasileiro, o dia 20 de novembro é tão somente mais um feriado, que por cair numa quinta-feira, torna-se prolongado. Fala-se sobre praias, viagens, cinemas, descansos, encontros e reencontros.
No entanto, o dia está reservado no calendário brasileiro para evitar que caia no esquecimento a morte de Zumbi e o fim de Palmares, na luta incansável de negros e índios pela liberdade e defesa de um território onde ela pudesse ser cultivada. Zumbi, o líder; Palmares, o local onde eles e seus liderados sentiam-se livres.
Olhado desse modo, o 20 de novembro de 1695, une-se ao dia cinco de outubro de 1897, data do massacre em Canudos e não considerado feriado e ao 21 de abril de 1792, quando Tiradentes foi morto, na luta pela liberdade de discordar.
É sempre a história da covardia do Estado contra aqueles que ousam levantar-se pela liberdade não de poucos, mas de todos. Aí está o que é mais curioso em tudo isso. Os valentes de Palmares, de Canudos e da Inconfidência Mineira, não lutaram só por si, mas por todos os que quisessem encontrar um lugar onde pudessem ser livres.
Como estamos na véspera de 20 de novembro, consideremos por enquanto só o dia dedicado ao Zumbi dos Palmares e o que sobre ele e seus liderados foi dito pelo povo pernambucano: “Eles parecem invencíveis”.
De fato, foram, pois eles compreenderam que sem liberdade, a vida perde completamente o sentido.
Em 1694, após meses de cerco, os bandeirantes de Domingos Jorge Velho desferiram o golpe derradeiro contra o maior símbolo de resistência negra do período colonial.
O ataque reuniu seis mil homens, artilharia pesada e reforços vindos de diversas capitanias. As defesas palmarinas, entrincheiradas num reduto de quase cinco quilômetros, resistiram por duas semanas — até sucumbirem ao fogo dos conquistadores.
Zumbi sobreviveu ao combate, refugiou-se na Serra Dois Irmãos, e ali permaneceu por quase dois anos até ser traído, capturado e morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça, decepada e exposta em Recife, pretendia demonstrar que o herói não era imortal, mas foi ali que nasceu o mito que atravessou três séculos e permanece vivo no imaginário nacional.
Outra lição vem de Palmares, de Canudos e de Minas Gerais: só lutam pela liberdade aqueles que, não sendo livres, têm consciência de tê-la perdido. Diz o artigo 1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que todos nascemos livres e iguais em dignidade e direitos.
Portanto, o primeiro passo para iniciar a luta pela liberdade é ter consciência de tê-la perdido. Essa é a verdade que liberta!