Publicado originalmente no perfil de Gustavo de Oliveira no LinkedIn, em 26 de setembro de 2026.
O mesmo governo que regulamentou as bets e criou um mercado de bilhões agora quer proibi-las. O governo que sancionou a chamada “taxa das blusinhas” para defender a indústria nacional decidiu zerá-la. E, às vésperas da eleição, o governo que criticou o governo anterior por reajustar o valor de programas sociais às vésperas das eleições em 2022, agora reajustou o Bolsa Família.
Cada uma dessas decisões pode ter uma justificativa própria, por acontecerem em novos contextos. O problema começa quando olhamos para elas em conjunto.
Governos têm o direito — e muitas vezes o dever — de corrigir políticas que não funcionaram. Circunstâncias econômicas mudam, erros acontecem e insistir numa decisão equivocada apenas para preservar a aparência de coerência seria ainda pior.
Mas quando mudanças de direção começam a se acumular justamente no momento em que aumenta a pressão eleitoral, surge uma pergunta legítima: estamos diante de correções de políticas públicas ou de políticas sendo corrigidas pelo calendário eleitoral?
Bets: regulamentar para depois proibir?
A recente controvérsia das bets talvez seja o exemplo mais emblemático.
O Brasil passou anos discutindo como regulamentar as apostas esportivas. O Congresso aprovou regras, o governo regulamentou o mercado, empresas pagaram para operar legalmente, fizeram investimentos, contrataram funcionários e celebraram contratos milionários com clubes e entidades esportivas. O mercado publicitário viu uma enxurrada de novos anunciantes entrando (literalmente) no jogo, e se estruturou para isso.
Agora, muda-se novamente a direção.
Não é preciso gostar das bets para perceber o problema. Existem excelentes razões para restringir publicidade, combater o vício, proteger menores, controlar o endividamento e aumentar a fiscalização. Quem descumpre a lei deve ser punido.
Mas existe uma enorme diferença entre aperfeiçoar uma regulamentação e desmontar de maneira instantânea um mercado que o próprio Estado acabou de organizar.
Há ainda outra questão: proibir o mercado legal não significa necessariamente eliminar as apostas. Parte relevante das apostas online já ocorre em plataformas clandestinas. Enfraquecer os operadores autorizados pode simplesmente deslocar consumidores para um ambiente que o Estado não consegue fiscalizar, tributar ou responsabilizar.
O resultado pode ser paradoxal: menos arrecadação, menos controle e nenhuma garantia de que haverá menos apostas.
Quando a regra de hoje pode não valer amanhã
E há o problema da segurança jurídica.
Empresas tomaram decisões, fizeram investimentos e assinaram contratos confiando em regras estabelecidas pelo próprio Estado. Quando essas regras são radicalmente alteradas pouco tempo depois, o efeito ultrapassa o setor atingido.
Todo investidor começa a incorporar uma pergunta adicional aos seus cálculos: por quanto tempo a regra brasileira continuará valendo?
A ida e a volta da “taxa das blusinhas”
A “taxa das blusinhas” oferece outro exemplo dessa mudança de direção.
Em 2024, o Congresso aprovou e o presidente Lula sancionou a cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50. O argumento era conhecido: estabelecer condições mais equilibradas entre plataformas estrangeiras e empresas brasileiras, protegendo comércio, indústria e empregos.
Dois anos depois, às vésperas das eleições, o próprio governo decidiu zerar o imposto.
É possível defender tecnicamente a taxação. Também é possível defender sua retirada em benefício do consumidor.
O que merece discussão é como uma medida apresentada como necessária para proteger a economia brasileira deixa de sê-lo justamente às vésperas de uma eleição.
Carros chineses: abrir ou proteger?
O dilema aparece também na indústria automobilística.
O Brasil quer receber bilhões de reais em investimentos de fabricantes chineses e acelerar a eletrificação da frota. Ao mesmo tempo, precisa preservar uma cadeia automotiva instalada há décadas, formada por montadoras, fabricantes de autopeças, fornecedores e centenas de milhares de empregos.
Queremos abertura ou proteção? Importação ou produção local? Carros mais baratos para o consumidor agora ou incentivos para que sejam fabricados aqui amanhã?
Não existem respostas simples. Justamente por isso, empresas que planejam fábricas e investimentos para décadas precisam saber qual será a política brasileira daqui a cinco ou dez anos — e não apenas nos próximos meses.
Bolsa Família: política social e calendário eleitoral
Até a política social entrou nessa discussão.
O reajuste do Bolsa Família pode ser defendido pela necessidade de recompor o poder de compra das famílias mais pobres. É uma discussão legítima e necessária.
Mas o calendário também existe.
Quando uma ampliação relevante de benefício ocorre tão próxima da eleição, é igualmente legítimo discutir não apenas se a medida é socialmente justificável, mas por que ela acontece naquele momento.
Nenhum desses fatos, isoladamente, prova que determinada decisão tenha sido tomada exclusivamente por razões eleitorais. Governos enfrentam pressões econômicas, sociais e políticas permanentemente.
Mas é o conjunto que chama atenção.
Taxa-se e depois se desonera. Regulamenta-se e depois se ameaça proibir. Abre-se o mercado e depois se busca protegê-lo. Benefícios são ampliados quando a eleição se aproxima.
Populismo caótico
Talvez estejamos assistindo ao que poderíamos chamar de populismo caótico.
Populismo porque medidas de forte apelo popular surgem ou são revertidas quando aumenta a pressão eleitoral.
Caótico porque a decisão de hoje frequentemente contradiz a justificativa apresentada ontem.
O problema não está simplesmente em mudar de opinião. O problema está na perda de previsibilidade.
A conta da imprevisibilidade
A economia suporta impostos altos ou baixos. Pode funcionar com maior proteção comercial ou maior abertura. Pode conviver com mercados fortemente regulados ou com ambientes mais liberais.
O que ela suporta muito mal é não saber qual será a regra amanhã.
E essa incerteza tem preço. Ela entra no cálculo do empresário que decide construir uma fábrica, do investidor que escolhe onde colocar seu capital, do comerciante que contrata funcionários e, no final da cadeia, do trabalhador cujo emprego depende desses investimentos.
Governar exige escolhas. Algumas serão populares; outras, inevitavelmente, não serão. Também exige reconhecer erros e corrigi-los quando necessário.
O que um país não pode fazer é substituir estratégia por conveniência e previsibilidade por pesquisa de opinião.
Porque, quando as regras mudam ao sabor das circunstâncias, o governo está claramente apostando no populismo.