Quem perde dinheiro numa aposta pode perder também a capacidade de pagar as contas e conseguir crédito. É o que mostra um novo estudo de pesquisadores do Insper e da Stone.
Os economistas cruzaram movimentações bancárias com informações de crédito do Banco Central. Compararam pessoas que começaram a apostar com aquelas que não foram identificadas como apostadoras.
O resultado merece atenção: começar a apostar elevou em quase 20% a probabilidade de inadimplência. O indicador de atraso no cartão de crédito aumentou cerca de 39%. E o limite total de crédito caiu 16%.
Preste atenção nesse último número. O prejuízo não termina quando a pessoa perde a aposta. Ela também pode ficar com menos crédito para enfrentar uma emergência ou tocar seu pequeno negócio.
Imagine um trabalhador autônomo que perde parte do dinheiro nas bets. Falta recurso para pagar uma conta, ele atrasa o cartão e, depois, encontra menos crédito disponível para comprar material e continuar trabalhando. A dificuldade financeira acaba atingindo sua capacidade de gerar renda.
E a pesquisa traz outro ponto importante: em parte dos casos, o aperto financeiro vem antes da aposta. A pessoa já está endividada e tenta encontrar no jogo uma saída.
É justamente aí que mora o perigo. A esperança de resolver uma dívida pode acabar aumentando o problema.
Aqui em Mato Grosso, essa discussão também interessa ao comércio, aos serviços e à indústria. O estudo não traz uma estimativa específica para o estado, mas o mecanismo ajuda a entender o risco: quando o orçamento familiar fica comprometido, sobra menos espaço para compras e para o pagamento das contas.
Para quem empreende, há ainda a mistura entre o dinheiro da casa e o dinheiro do negócio. Uma perda pessoal pode consumir o recurso necessário para repor estoque ou comprar uma ferramenta.
É preciso fazer uma ressalva: o estudo acompanha clientes de uma instituição financeira. Os números não devem ser aplicados automaticamente a todos os brasileiros. Mas o alerta é claro.
Aposta não é investimento, não é complemento de salário e não é solução para endividamento.
Precisamos de educação financeira, de acolhimento para quem perdeu o controle e de responsabilidade na publicidade que vende a ilusão do dinheiro fácil.
Porque, quando a aposta compromete o orçamento, a conta chega à família, ao trabalho e à economia.
O estudo que ajudou a construir este artigo está disponível logo abaixo:
Apostas online e dificuldades financeiras: Evidências do Brasil
Assista também a entrevista de Gustavo de Oliveira sobre esse assunto no Programa Primeira Página da Rádio Centro América FM desta quita feira, 10 de setembro de 2026.