O Brasil se acostumou a discutir quem deve ser odiado nesta semana. Enquanto isso, adia a discussão sobre por que custa tanto viver, produzir, contratar, estudar e envelhecer com alguma segurança neste país.
Direita contra esquerda. STF contra políticos. Imprensa contra redes sociais. Cada brasileiro é convocado a escolher uma trincheira, defender seus aliados e justificar seus absurdos. No meio desse barulho, a cobrança por resultados desaparece.
É um sequestro da atenção nacional. E quem administra mal agradece.
Os problemas brasileiros atravessam governos e se acumulam em áreas demais para serem tratados como acidentes isolados. Há uma distância intolerável entre o dinheiro que o Estado consome e a qualidade de vida que consegue entregar.
Na economia, o país cresce, mas crescimento agregado não significa alívio para todos. Uma família pode ganhar mais e continuar sufocada pelas prestações. Uma empresa pode aumentar o faturamento e terminar o mês sem caixa. Em julho de 2026, a inadimplência no crédito livre atingiu o maior nível da série iniciada em 2011, segundo dados do Banco Central. O aperto tem medida.
Na indústria, no campo e no comércio, a pergunta decisiva é quanto sobra depois dos impostos, dos juros, da burocracia e dos custos de operação. Produzir muito e reter pouco compromete investimento, emprego e futuro.
Uma política industrial deveria começar permitindo que a indústria fosse competitiva. Uma política agrícola deveria reconhecer que safra volumosa não garante rentabilidade. Uma política de desenvolvimento deveria entender que o varejo depende de consumidores com dinheiro disponível, não apenas com limite no cartão.
E um país que pretende prosperar deveria se incomodar com a transformação da aposta em promessa cotidiana de ascensão econômica. Quando o trabalho perde espaço para a esperança de um prêmio, existe um problema que vai além do entretenimento.
Nas contas públicas, empurrar o desequilíbrio para o futuro tornou-se um método. Na Previdência, o envelhecimento da população exige uma discussão permanente sobre financiamento, proteção e equidade. Adiar escolhas não elimina seu custo: transfere a conta.
Também não faz sentido transformar aposentados, servidores e famílias vulneráveis em inimigos de quem produz. Todos consomem, muitos trabalham e pagam impostos. A cobrança deve recair sobre um sistema que precisa ampliar a produtividade e a autonomia das pessoas, enquanto preserva privilégios que não consegue justificar.
Nos municípios, a insuficiência aparece perto de casa: na espera por atendimento, na manutenção adiada, na praça deteriorada. Não é correto dizer que todas as prefeituras estão falidas. Mas o IFGF 2025 encontrou situação fiscal difícil ou crítica em 36% das cidades analisadas, onde vivem 46 milhões de brasileiros. É gente demais para tratar a precariedade como exceção.
Na educação, a persistência do baixo aprendizado deveria provocar uma emergência nacional. No Pisa 2022, 73% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível básico em matemática. Um ranking interno pode revelar avanços importantes, mas superar a média brasileira não basta como ambição educacional. Precisamos medir a distância até a excelência, não apenas a vantagem sobre o vizinho.
Na segurança, o cidadão quer poder sair de casa e voltar. Quer mulheres protegidas, investigação competente e punição efetiva. Os feminicídios e a violência sexual destacados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 expõem uma proteção que continua falhando. No trânsito, mesmo a redução das mortes nas rodovias federais em 2025 deixou mais de seis mil vítimas fatais. A tragédia não precisa crescer em todos os indicadores para continuar inaceitável.
O enfrentamento ao crime organizado exige continuidade, inteligência e capacidade de atingir seu dinheiro. Operações ostensivas podem ser necessárias, mas a segurança não pode depender de demonstrações ocasionais de força.
Enquanto isso, a relação entre os Poderes transmite a sensação de que quebraram os freios e soltaram os contrapesos. Disputar competência, orçamento e influência ocupa espaço demais. Assumir responsabilidade pelo resultado ocupa espaço de menos.
O controle da administração também precisa responder por sua eficácia. Fiscalizar bem exige distinguir fraude, erro e decisão legítima sob incerteza. Quando o gestor passa a considerar a omissão mais segura que a ação, o cidadão paga pelo serviço que não aconteceu.
A pergunta é incômoda: estamos impedindo o desperdício ou apenas multiplicando procedimentos para documentá-lo?
Nas emendas parlamentares, existem fiscalização e decisões judiciais. O problema é que a transparência e a rastreabilidade ainda precisam ser cobradas. A nova determinação para criar um identificador único das emendas mostra que acompanhar o dinheiro público continua sendo uma tarefa incompleta. O cidadão deveria conseguir saber quem indicou, quem recebeu, quem executou e o que foi entregue.
Para financiar as campanhas de 2026, foram disponibilizados R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral. A comparação com as carências do país é inevitável. A estrutura de reprodução do poder tem financiamento assegurado; a qualidade dos serviços continua esperando solução.
Nada disso exige acreditar numa conspiração coordenada. A distração funciona porque serve a interesses que se encontram. Políticos mobilizam suas bases. Plataformas disputam atenção. Comentaristas alimentam conflitos. E cidadãos passam a avaliar os fatos pela identidade de quem ganha ou perde com eles.
Quando o nosso lado erra, procuramos uma desculpa. Quando o outro acerta, procuramos uma suspeita. Assim, a lealdade partidária passa a valer mais que a escola, a segurança, a renda e o dinheiro público.
Precisamos inverter essa hierarquia.
Cobrar aprendizado. Cobrar atendimento. Cobrar segurança. Cobrar responsabilidade fiscal, transparência e condições para produzir. Exigir de aliados o mesmo padrão que exigimos dos adversários.
O país não precisa de unanimidade ideológica. Precisa recuperar a capacidade de reprovar o fracasso, inclusive quando ele veste a nossa camisa.
Enquanto o brasileiro briga para decidir quem é o inimigo, quem lhe deve resultados escapa da cobrança.